segunda-feira, 17 de junho de 2024

O agro chegou lá. Falta a indústria. Falta crédito

 

Demóstenes Torres — Coronavírus matando diuturnamente. Repartições, comércio e indústria pararam. E a agropecuária? Continuou trabalhando de domingo a domingo, evitando desabastecimento. É assim desde sempre, com ou sem pandemia, sol ou chuva, poeira ou lama, haja ou não financiamento, como não há. Acorda às 4 da madrugada, tira leite, planta, colhe e escoa grão, algodão, cana, para às 10 da manhã ouvir “não” ao crédito tentado no banco. É urgente que a indústria nacional, cujos integrantes são tão dedicados quanto os agricultores, alcance o padrão de excelência estabelecido no campo, que granjeiam elogios extensivos ao processamento de sua produção.

 

Estudo da Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas da Embrapa provou em 2021 que acima das botinas, abaixo dos chapéus, o suor do lavrador brasileiro (patrões, peões, tratoristas, pesquisadores) encheu 1 bilhão e 600 milhões de estômagos ao redor do mundo em 2019 e 2020. São profissionais admirados em todos os continentes. Novo empate: assim também são operários, técnicos e empresários de alguns setores, como o farmacêutico. O desafio é maximizar o sucesso em outras plantas (e aqui a referência é às da indústria).

 

A palavra-chave é Educação. Na roça, a enxada foi substituída pelo trator, que agora tem joysticks em vez de volante e até controle remoto em vez de condutor. Para isso, foi fundamental o Sistema S, que no Senar treinou Luiz Inácio para ser o metalúrgico Lula e no Senar forma os condutores da revolução no maquinário que ordenha, corta, ensaca, conta e coloca no caminhão prontinho para a gôndola do supermercado ou a barraca da feira. Verbo-chave: estudar. Sem conhecimento a pessoa não cresce, o país se atrofia.

 

Cingapura, uma ilha pouco maior que o Plano Piloto, tem 8 mil multinacionais, PIB per capita superior ao dos Estados Unidos. Importa água. O solo é inteiramente infértil. Ao ficar independente, em 1965, era mais uma nação pobre no sudeste asiático. A região inteira mudou e Cingapura, mais ainda. Uma razão para toda a transformação: a Educação. As rimas em ão serviriam para o Brasil? Não apenas servem, como são a única solução. Sem a Educação, nosso nativo analógico não conseguiria emprego algum no celeiro da tecnologia.

 

Do outro lado do mundo e das prioridades, dos 334 bilhões de dólares exportados pelo Brasil em 2022 os campeões saíram do solo ou do fundo: soja (US$ 46,6 bi), óleos e betuminosos (US$ 55,6 bi), ferro (US$ 29,8 bi), milho não moído (US$ 12,2 bi), carne de boi e aves (US$ 20,7 bi), açúcar, melaço, adubo, fertilizantes e outros produtos com qualquer transformação (US$ 20 bi). São números bons. Falta a participação da indústria, 100 bilhões em eletrônicos, mais 100 em biotecnologia, mesmo tanto em telecomunicações, informática. Assim como os fazendeiros, os industriais pretendem alcançar esse nível. Deixa o Custo Brasil saber disso…

 

Há menos de um mês, o Ministério do Desenvolvimento apresentou estimativa aterrorizante: o Custo Brasil é de 1 trilhão e 700 bilhões de reais por ano, superior a todas as exportações. Como eliminar esse horror? Qualificar mão de obra, reduzir a carga tributária (a daqui é 1.000% a mais que a média da Europa, principalmente de impostos não recuperáveis na cadeia produtiva), melhorar a infraestrutura, com destaque para a logística (ferrovias, portos, aeroportos, rodovias de verdade), impedir a insegurança jurídica, acabar com a burocracia, rever inteiramente as regulamentações, implantar legislação trabalhista que beneficie quem produz, não o sócio oculto, o estado. Enfim, há bastante a fazer e essa ladainha é repetida toda vez que há ouvidos disponíveis, principalmente se eles separam cabeças de possíveis resolvedores – não somente os oficiais.

 

Em nenhum lugar do planeta o governo dá dinheiro para empresário: eventual incentivo vai para o consumidor final. No agro, por exemplo, o subsídio, quando existe, não é para quem está na roça ou no curral, é para quem vai à mercearia ou ao açougue. Vendido pelo que vale, o quilo de carne seria R$ 200, sem os exageros de frigorífico gourmet. Por que é comercializado por bem menos? Nos demais países, porque o governo tem orçamento específico para remunerar o pecuarista; no Brasil, porque o dono da fazenda investe em tecnologia. A indústria perde por esperar. Se a diversificação dos investimentos depende de algum poder, é o aquisitivo.

 

Enquanto o Brasil urbano se desindustrializa, em lavouras e confinamentos a produtividade explodiu. Terreno em que não nascia nem praga está a bater recordes internacionais de sacas por hectare. Os investimentos do Programa de Pesquisa e Inovação Agropecuária, mesmo somados às despesas da administração da Embrapa, subiram 46,5% do ano passado para este, alcançando R$ 345 milhões. Mês e meio atrás, o coordenador do MST, João Paulo Rodrigues, deu entrevistas comemorando que no segundo semestre a pasta respectiva vai comprar R$ 400 milhões em chácaras para os sem-terra. País em que invasor supera pesquisador chega a Cuba, não a Cingapura.

 

No início deste mês, o IBGE divulgou os índices da economia no 1º trimestre de Lula 3: indústria caiu 0,1%, serviços incrementaram 0,6% e o agro cresceu 21,6%. Sem contar que o campo injeta consumo de serviços e, mais ainda, na indústria. A imensa influência nos demais setores lança um alerta: três anos seguidos de seca, como a que atualmente subjuga a Argentina, e o Brasil sucumbiria. Semeamos por vocação. De citadinos iguais a mim, que nas janelas de casa tenho de floreiras a pimenteiras, aos maiores do mundo em seus respectivos segmentos. É um estilo de vida, de moda (além do cinto de fivelona), de música (de Tonico & Tinoco ao sertanejo universitário), de comportamento. Presente a vocação empreendedora que garante o futuro, pena-se com a ausência de uma cultura inata de fabricar.

 

A plataforma MapBiomas, alimentada por universidades e outros refúgios de especialistas, divulgou nesta semana que em 2022 desmataram-se 20 mil km². Para dar ideia, o Distrito Federal tem 5.802km². Segundo o Sistema de Alertas de Desmatamentos da MapBiomas, 96% das árvores foram derrubadas para agropecuária. Desnecessário. O agro é a nossa Cingapura. Com o volume de tecnologia a que chegou, as áreas já preparadas para o cultivo são suficientes, pois a produtividade cresce mais que a demanda global. Se o Ibama prestasse para alguma coisa, deveria ser para esclarecer e prevenir o floresticídio. O agricultor de verdade preserva o meio ambiente – inclusive, deixa em média 1/3 de sua propriedade para árvores, rios, nascentes, serras, abrigos de animais silvestres.

 

Discursos superados, tipo os que demonizam o capital, encontram algum eco em cérebros atrofiados com mandato no Congresso. Deles se expelem sandices como a revogação da minirreforma das leis trabalhistas. Felizmente, são minoria. O diabo mora nos detalhes. E o Custo Brasil é beeeem detalhista.

 

Foto: blog.sensix.ag

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Este post foi escrito por: Demóstenes Torres

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