quinta-feira, 18 de julho de 2024

O asfalto como penitência e o socorro de Santiago

 

Marcio Fernandes – O Dia 7 foi de longe o mais difícil deste trekking de longo curso. Logo após deixar Redondela, o grupo se dispersou. Na altura do terceiro quilômetro andado começou a penitência de subida por uma estrada movimentada de carros e caminhões.

 

Nos cruzamentos, motoristas apressados e impacientes com a rotina da manhã. Eles ainda vão perceber o papel estúpido que fazem ao perder tempo com pressa sem importância.

 

A ascensão até o topo da colina que dá acesso a Arcade durou 1h40 para fazer 1,8 quilômetro com ganho de altitude de aproximadamente 200 metros.

 

Algo insano, pois o asfalto te cozinha dos pés a cabeça. Minha pele está machucada de sol e esqueci o protetor solar em algum lugar. Roubada adquirida com as próprias mãos! Todo castigo para displicente é pouco!

 

 

Mesmo assim, tomei decisão drástica. Concentrei toda energia nas minhas canelas secas e botei tração no passo para superar a inclinação positiva do terreno. De fone de ouvido novo, a música foi minha companheira inseparável. Som alto na caixa e muita coisa qualificada como Red Hot Chili Peppers, Sun Rai, Cat Stevens e The Velvet Underground. Nancy, te mando outro abraço apertado daqui e muita música boa!

 

No Caminho, parei em mercearia, tipo Secos & Molhados dos tempos em que era criança. Fiquei admirando caixas de arenque, queijos diversos, frutas de época, sacos de cereais e potes de conserva.

 

No ambiente, enquanto eu comia duas mexericas, operários galegos tomavam cidra. O pessoal da Espanha abre o bar cedo. Eu estava só na água e tomado de trôpego cansaço. A recompensa foi uma das mais lindas imagens do Caminho Português Central em Ponte Sampaio. A subida da maré é tão volumosa que inverte o curso do Rio Verdugo em direção da nascente.

 

 

Os últimos seis quilômetros fizeram a diferença por atravessar bosque que seguia o curso do Rio Tomeza. Na entrada, as árvores pareciam te abraçar. O contrário dos ecologistas de fachada que abraçam árvores para fazer bonito. Vou usar, de agora em diante, a técnica do reflexo condicionado ao avesso, começar a latir para os cachorros e assim mantê-los longe de mim.

 

Nossa! Estava chegando em Pontevedra e a costura da cinta superior da minha mochila abriu. Iria andar sem a proteção da coluna cervical. Onde encontrar reparo? Fui atrás de sapateiro. Encontrei por intermédio do socorro de uma senhora com duas crianças. O reparo foi feito e eles cobraram dois euros. Quis pagar 10 euros e o casal de artesãos não aceitou. Estava ao lado de loja de vinhos. Comprei para eles de presente um Rioja reserva com 92 pontos da Decanter. Obrigado Santiago! Hoje vai ter piau!

 

 

Vamos aos positivos do dia!

 

O primeiro vai para o querido Márcio de Amsterdam. Lá, cá e em qualquer lugar você sabe que anda comigo.

 

Preciso mandar um positivo para Carlão, há dois mil anos estabelecido no comércio de camelos na região de Ribeirão Preto. O cara me disse ter feito o Caminho de dromedário. Vou aí te ver em julho.

 

Quero mandar positivo para Marisa, encontro de fineza e inteligência na mesma pessoa. Não bebo café, mas estou te devendo um chá das 5.

 

Sempre positivado, só quero saber se Tio Aloysio recebeu direitinho a cachoeira que mandei para ele no último domingo. Socorre o Daniel para mim na história do carro!

 

Por fim, enviar um positivo com afeto e força para todos que se perderam no caminho. Deixei uma pedra para nós em algum lugar da Galícia. Peça a bênção de Santiago que ele zelará por ti!

 

Marcio Fernandes é jornalista!

Fotos: Marcio Fernandes

 

A música de hoje é More Mess On My Thing da banda The Poets of  Rhythm. Estou carente de som pesado na caixa!

 

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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6 comentários em "O asfalto como penitência e o socorro de Santiago"

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