quinta-feira, 18 de julho de 2024

O Brasil antes do Catupiry

 

Por Marcelo Fernandes de Melo, promotor de Justiça em Goiás

 

Era final dos anos 1970 em Uberlândia (MG). Minha mãe, professora, sabe-se lá com quais dificuldades, conseguiu comprar uma ação do UTC, clube mais popular e de fácil acesso na cidade. Eu, meus irmãos e um primo, quando podíamos, aos sábados, passávamos o dia entre piscina, pelada e observação das coisas boas da vida.

O dinheiro, geralmente moedas, dava para um misto no almoço, na lanchonete do recreativo. Mas não. Ficávamos sem o reforço para, ao final da tarde, saborearmos coxinhas numa birosca que ficava do lado de fora, em frente à portaria do ginásio, no início da rua Arlindo Teixeira.

“Pilequinhos Bar”. Eu era o responsável por juntar os trocados e dividir o petisco, quase sempre acompanhado de duas ou três guaranás que também dividíamos. Não existia, nem nunca para mim existirá, melhor iguaria. Comíamos uma ou duas coxinhas com dois copos de guaraná mineiro, ainda encontrado nos melhores estabelecimentos. Melhor coxinha da América Latina era do Pilequinho.

De lá para cá muita coisa mudou no sentido de ter dado piorada boa. Muita riqueza se produziu, houve bastante inclusão sócio econômica para uma classe média então ascendente, aumentou-se para muitos o poder de consumo, mas as pessoas não dividem guaraná e coxinhas.

Essas não mais são feitas por mãos habilidosas, treinadas arduamente para o ponto perfeito da massa de batata e o tempero marcante de um recheio de galinha caipira cozido em fogo lento. Só levados à fritura em óleo novo e bastante quente. Não bastasse, ainda são empestadas, para dissimular a ausência de sabor, com Catupiry. Isso: coxinha não mais tem gosto de coxinha, mas, de Catupiry.

De certa forma, a despeito dos progressos materiais experimentados nas últimas décadas, tal como as coxinhas, perdemos qualidade e consistência em vários aspectos. A coisa desandou. Mas, tudo bem, toca Catupiry. O povo gosta e a vida segue.

 

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Este post foi escrito por: Marcelo Fernandes de Melo

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