terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Egito é aqui!

 

Madame Editora,

Seria possível mudarmos os nossos assuntos? 

Seria possível escolher entre tantos outros interesses que encontram pouso no meu coração e nos meus entendimentos? Senhora, ouso dizer que não tenho pena nem discernimento para os acontecimentos dessa falida República desses vossos anos. Quando penso sobre as sabatinas, antes que escreva sobre as mesmas, sobressaltam-me ministros caindo, cada qual com uma podridão distinta, Madame! É muito fato, pouco argumento, e, ao mesmo tempo, muito argumento para muito fato, provas das quais só se ouviu falar, candidatos sem propostas e um país que urge se equilibrar sobre um fio de cabelo bambo… não se trata nem de corda, senhora… Eis que a Pátria de dois mil e vinte e seis se equilibra em um fio de cabelo!

 

Acá em Goyaz, temos nós uma expressão perfeita: este Brasil está por um beiço de uma pulga!

Que lástima!

 Tenho, por isso, meditado muito sobre um dos ângulos dessa história brasileira.

 

Pego-me pensando sobre o detrás. O escondido. O que pouca gente sabe. Sobre o brilho oculto da história e a sombra que merece o seu lugar: conjecturo sobre os fatos que a desencadearam, os movimentos anônimos e até os homens e mulheres que têm nome e sobrenome e que fizeram a roda girar, mas que não pertencem ao público e, se foram mencionados nos anais compilados por aí, o foram em poucas e insensíveis linhas.

 

Isso é o sublime, madame, é o Lorde Carnarvon dos acontecimentos. 

Falo sobre o Egito, senhora, que não me é inteiramente estrangeiro.

Bem sabeis vós que Sua Majestade D. Pedro II e alguns nobres felizardos pisaram em terras faraônicas. Daí que cópias, apontamentos, gravuras e relatos da jornada imperial encontraram pouso acá na Província. 

 

Passei muitas noites de menina contemplando pirâmides, templos e homens reduzidos a múmias pela eternidade. A curiosidade sempre me seduziu, senhora! Tenho asas nos pensamentos, bem sabeis. 

Desde então, o Egito me pareceu um país acá do lado, como que doutro lado do corgo.

 

Nas linhas tortas dos meus pensamentos, elegi Lorde Carnarvon para vos explicar os meus raciocínios. Carnarvon foi o britânico financiador da expedição que descobriu a tumba de Tutancâmon, o faraó menino. Ele entrou com o dinheiro e a Múmia entrou com a maldição. Vede que fatídico: o financiador foi o primeiro a morrer de causa sobrenatural após a equipe de arqueólogos bancada por si desenterrar múmias, sarcófagos, artefatos e tudo mais que os milênios esconderam. 

 

Mas Lorde Carnarvon ficou relegado a duas ou três linhas nos Almanaques, enquanto Howard Carter, o arqueólogo chefe da expedição, mereceu filmografia. 

Ano após ano Carter é relembrado. Pois vede, Madame: não existiria Carter se não fosse Carnarvon, e não existiria expedição se não houvesse o financiamento. E esse é o ponto que eu quero atingir. 

 

O registro esconde as molas propulsoras, para o bem ou para o mal. Esconde os ventos que impulsionam ou o deserto que emperra. 

E isso é a história: aquilo que se sabe e aquilo que nunca vai ser dado a conhecer. 

No caso dos egiptólogos, um recebeu a glória. O outro, a maldição.

Eis, Madame, uma divisão de lucros que me pareceu profundamente brasileira.

 

Após a maldição da múmia sagrar-se como história verdadeira, surgiram boatos de que fora uma mentira inventada por ele mesmo, Carnarvon, juntamente com Carter. Tudo para que ninguém ousasse roubar nada da tumba do rei. Deu certo.

 

Percebei, senhora editora: o Egito é aqui. Ou aí, como for de vossa preferência. 

Pois assim pergunto-vos: quem seria quem por essas vossas bandas eleitoreiras?

Quem seria o Lorde Carnarvon dessa vossa história recente?  Quem seria o Carter? Não nos esqueçamos da Múmia, tampouco da Maldição, pessoa em si mesma, prosopopeia, linguisticamente falando. 

E o Faraó morto? Quem seria ele?

Pensemos que nossa nação, seja destes anos de oitocentos ou dos vossos, tão sublime e gentil, de fato não é para amadores. Usemos a imaginação, madame! E haja imaginação para desvendar o que está por detrás.

Assim, se for de vosso gosto, poderíamos por aqui tratar de variados temas destas terras raras, tão disputadas: Goyaz. 

Dize-me por favor qual seja o vosso veredito.

Com respeito,

 

Sinhá

Este post foi escrito por: Sinhá

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