quinta-feira, 18 de julho de 2024

O garçom quer virar patrão

 

Ele já ganhou gorjeta de R$ 6 mil numa época em que os boêmios compareciam com mais assiduidade, adotavam um bar e eram fiéis a ele para sempre. O garçom Divino Correia, o Divininho, 58, veio de Americano do Brasil para Goiânia exercer sua vocação de servir. E já são 35 anos empunhando bandejas e praticando sua natural gentileza. Começou como atendente e logo foi alçado à condição de garçom em um estabelecimento em frente da antiga rodoviária de Campinas.

De lá pra cá, passou por quase todos os bares e restaurantes da cidade. Serviu no Beb´s e Chicken´in, na Praça Tamandaré, quando o Setor Oeste experimentou um boom de empreendimentos de comida e bebida. Inaugurou o Corsários, que ficava dentro de um barco instalado na Ricardo Paranhos; viu nascer e morrer o Polo Gastronômico do Setor Marista – só no saudoso Piquiras da Rua 146 estacionou por muitos anos e serviu dezenas de celebridades da música, das artes e da política. Também colocou smoking para inaugurar o Kabanas do Vaca Brava.

Interrompeu as atividades por aqui e ficou um tempo na Europa. Lá trabalhou durante três anos em bares na Irlanda, Espanha e França. Na volta, emprego não faltou. Foi convocado para inaugurar o Tróia e depois foi para o Café de La Music. Divino conhece a alma dos clientes e o sistema dos fornecedores, por isso sempre foi peça chave em novos empreendimentos – conta mais de 30 deles em sua carteira de trabalho. Hoje comanda o Spotta.

 

Testemunha – Nos espaços de boemia, Divino já viu de tudo: dois deputados que se atracaram e um jogou copo na cara do outro, transformando o pedaço em praça de guerra; mulher que pegou o marido com amante e deu início a sessão de puxões de cabelo e beliscões e várias outras situações delicadas em ambiente onde regrar a bebida não é regra. Mas ele sempre se fingiu de morto. Os casos testemunhados vão virar um livro dos 40 anos de profissão.

Mas ele próprio confessa já ter perdido a linha. Certa vez, à época em que a tradição era o serviço à francesa, catou uma suculenta fatia de bacon que os clientes haviam deixado na travessa e saiu comendo pelo salão. O maitre lhe puxou a orelha e ele nunca mais repetiu a feiura. O que ele vê muito hoje e condena é sommelier tomar o equivalente a meia taça para atestar a qualidade do vinho para o cliente.

Para o experimentado profissional, garçom tem de ler o humor do cliente. “Às vezes ele está nervoso, daí a gente se recolhe, mas tem hora que a figura que está sentada tomando uma cerveja, precisa mesmo é de um psicólogo”, disseca, aconselhando que o melhor, em qualquer situação, é nunca se intrometer na vida do freguês.

 

Conselho – Sobre a perenidade dos bares e restaurantes em Goiânia ele tem uma teoria. Acredita que o que espanta a freguesia é a imposição da cozinha – coisa do tipo fazer cara feia quando o cliente quer a carne mais bem passada. “Hoje o cliente não manda, não tem razão”, resume. Outra coisa é usar o “sinta-se em casa”. Acha Divino que se o cara saiu de casa, ele quer algo diferente; quer ser bajulado, então tem de ser tratado melhor do que é na casa dele. “O que todo mundo quer quando sai de casa é ser surpreendido”.

Ele também aponta outro motivo para o abre e fecha dos estabelecimentos. “Os arquitetos projetam um salão bonito para sair nas fotos, mas não se preocupam em entender a operação da cozinha. Deveriam ouvir o cozinheiro e os garçons para que todo o serviço seja mais eficiente”. E sentencia: 50% dos fregueses são fiéis por causa da equipe. “Recebo ligações de clientes que querem saber onde estou trabalhando; tem muita gente que segue o garçom”.

Com a bagagem que tem – é também sommelier, faz palestras, presta consultoria para novas casas – Divino acha que é hora de parar de ajudar os outros a enriquecer e pensa em montar seu próprio negócio. Vai chover seguidores!

 

Quem quiser contratar o Divino, aí vai o telefone: 98600-7677

 

 

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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