quinta-feira, 18 de julho de 2024

O holocausto armênio que o mundo Ocidental insiste em esquecer

 

Marcio Fernandes — Ontem peguei um torturante trem com proa posicionada a Sudeste de Tbilisi em direção a Yerevan. Para quem está acostumado às longas distâncias do Brasil, 280 quilômetros é passeio. Eu fiquei simplesmente 10 horas no trem para fazer o percurso.  O voo entre as duas cidades demandava apenas 32 minutos, mas cismei com o avião. Se o trem já era uma sucata soviética da década de 1970, imagina a esculhambação da aeronave!

 

Atenção casais de todos os gêneros e, principalmente, as senhoras grávidas. Sem essa de registrar as crianças com nome de Yerevan ou Yerevana! Tampouco Yerevane, que poderia atender aquela bobagem de língua neutra! Também não pode Yerevanny, que só piora a situação! O nome é da capital da Armênia, não de gente! Nem pode atribuí-lo também a medicamento para hipertensão! Tem de desconfiar, pessoal!

 

 

A figura que confere o bilhete do trem me pediu duas vezes para mostrar a passagem e o passaporte. Ela tomou antipatia de mim à primeira vista! A senhora, com respiração de enfisematoso, leu o documento, mexeu daqui, mexeu de lá, fechou a cara, pôs a mão no queixo pensativa, deu uma olhada para meu escurismo e nada de elaborar um relatório conclusivo sobre minha situação. Ela não sabia o que era Brasil e foi inútil minha tentativa de esclarecer os fatos!

 

Seria um ananás geneticamente modificado? Seria um cigarro do Paraguai? Seria uma marca nova de Rivotril? A pergunta que não quis se calar entre a tripulação do trem foi o que é Brasil!

 

 

A negligência e a preguiça são comandante-em-chefe das roubadas mais expressivas! Como eu, você deve estar imaginando que no trem havia aquele vagão-restaurante, garçom de smoking, guardanapo de tecido, vinho em taça de cristal e soberba alimentação. Como no filme Assassinato no Oriente Express! Certo? Errado!

 

No trem havia rigorosamente nada! Nem água para vender! Nada, nada, nada! Eu tinha na conta suprimentos e víveres meia garrafa de água após 1h20 de viagem. Deveria ter preparado uma matula em vez de tirar aquele soninho da tarde! Vou perder em 10 horas os preciosos 400 gramas adquiridos em toda viagem, que já dura um mês! Havia um sentimento de frustração me alcançando, enquanto o trem seguia em ritmo devagar quase parando!

 

Por acaso não havia na composição nenhum alma solidária com graduação em Engenharia Mecânica que pudesse passar instrução de como montar a complexa cama do vagão! Pessoal, na próxima vez vamos unir esforços e enviar um tutorial do tipo faça você mesmo!

 

 

A sensação é de que ninguém quer chegar em Yerevan de tão lento é o andamento do trem. Já o maquinista deve ter colocado o material rodante no modo freio de mão puxado. Eu senti que a coisa seria assim quando vi a situação da locomotiva. A impressão é de que você está carregando o trem nas costas!

 

Duas horas após a viagem foi realizada a imigração em ponto ermo da ferrovia do lado georgiano. Foi mais de uma hora de espera. Policiais obesos, com semblante gosmento, em ritmo de trabalho tipo água parada, faziam o serviço com indisfarçável tédio. Pelas minhas contas, havia no local mais cachorros sarnentos do que policiais em prontidão!

 

Eu apaguei com comprimido de Zolpiden, mas durou pouco. Um oficial da imigração do lado armênio me puxou pelo pé e acordei de súbito apurado. A verificação do passaporte é feita dentro do trem. Então começou o interrogatório de uma pergunta só! Brazilien? Yes! Brazilien? Sí! Brazilien! Oui! Brazilien? Caraca! Yes, sí, oui! I’m Brazilien de Santa Cruz de la Sierra! Meio desconfiado, o policial mandou o carimbo com passaporte apoiado na perna!

 

 

Não deu ainda para dar aquele conhecendo a região em Yerevan. Optei por visitar o Museu do Genocídio Armênio. Diferente do Holocausto judeu, que tem amplo conhecimento, o massacre de 1,5 milhão de armênios pelo Império Otomano caiu no esquecimento por uma série de conveniências políticas das potências ocidentais e em razão de o povo armênio ser tratado com menor importância.

 

Em painel do museu há um questionamento que resume o desprezo histórico pelo povo armênio: Quem, apesar de tudo, fala hoje da aniquilação dos armênios? Além de poucos mencionarem este que foi o primeiro extermínio em massa do Século 20, os turcos, autores da chacina, têm a pachorra de negar a história.

 

Aliás, a Armênia até hoje é tão oprimida e acuada no contexto geopolítico do Cáucaso, que no lado Oeste faz fronteira com a Turquia, país inimigo com razão. A Leste, trava guerra por sofrer usurpação de território pelo Azerbaijão. Ainda sofre a tutela russa. É fácil observar a conduta de russos arrogantes em Yerevan. Eles tratam os armênios como um povo colonizado que deve vassalagem ao Kremlin e tem de aguentar de cabeça baixa as grosserias da elite russa.

 

 

A primeira impressão do povo armênio é a melhor possível. Mostram ter educação de fundo, escolaridade, é fácil encontrar quem fala inglês, além de serem super solícitos. Yerevan está longe de ser uma cidade linda, mas tem algo que nenhuma capital do mundo possui: a visão panorâmica do Monte Ararat, onde Noé deixou sua arca. Apesar de ser historicamente armênia, a montanha encontra-se ocupada pela Turquia. De novo, ninguém diz nada!

 

Meu primeiro positivo vai para a comunidade armênia de São Paulo. Gente super qualificada, do trabalho e que tem restaurantes sensacionais!

 

Quero mandar um positivo para todos que promoveram revolta com a matéria sobre as medalhas! Tá precisando melhorar o setor de interpretação de texto!

 

Mandar um positivo para o Christopher! Estou praticamente voltando! Depois que passar o jet lag vamos voltar às aulas de conversação!

 

Agora vou positivar o Paulo do Sindifisco, figura de grande estatura moral e personalidade!

 

Por fim, enviar positivo expressivo para Fernando Perillo. Lembra-se da entrevista que fiz contido em 1987? Tempão, hein?

 

Texto e fotografias Marcio Fernandes!

 

A música de hoje é mais pras calminhas! Vai aí Canção Noturna, do Skank!

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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