O homem que conversava com a janela do trem na direção do massacre que não pode ser esquecido

Marcio Fernandes – Eu estava no domingo, 17 de maio, no trem de Tel Aviv para Ashkelon, Israel, com o objetivo de encontrar amigos, visitar o Kibutz (unidade coletiva de produção agroindustrial) Mordechai e terminar meu último dia no país para depois deixar a saudade fazer o que quisesse comigo.
São 11 estações da partida ao destino, em uma composição confortável de dois pavimentos com ar-condicionado e movida a eletricidade durante 57 minutos.
No entra e sai de passageiros, grande parte soldados armados indo e voltando das bases militares, havia um homem que falava consigo mesmo, como se estivesse a conversar com a janela do vagão em voz baixa.

Para um brasileiro, é interessante observar mulheres de 18 anos em uniforme, carregando no ombro o fuzil de assalto “micro tavor” e com o rosto todo cheio de maquiagem. Em Israel, o serviço militar é obrigatório para homens (três anos) e para as mulheres (dois anos).
Após cumprir a missão no quartel, há uma tradição dos reservistas de mochilar uns meses pelo mundo. Com quem eu conversei, Bahia, Florianópolis (Brasil) e Buenos Aires (Argentina) foram os lugares mais citados. Hoje em dia, Morro de São Paulo (BA) virou uma febre para os jovens israelenses.
O homem que fala sozinho parecia estar única e exclusivamente encarregado desta missão. Ele não olhava para quem passava pelo corredor, não prestava atenção no anúncio da próxima estação, não escutava o barulho irritante de alguém ao seu lado pregado no Instagram. O que ele fez foi somente executar a tarefa solitária de conversar com a janela do trem.

Ao chegar em Ashkelon me esperava na estação meu novo grande amigo, Hagai Magbo, um judeu da Etiópia muito solícito e gente fina. Fomos de carro até o Kibutz Mordechai para eu conhecer o local e nos encontrar com Daniel Haddad, outro amigo do coração de longa data.
Daniel é responsável pelo setor de apicultura do kibutz, onde há uma sala enorme com auditório e as paredes cobertas de informações ilustradas de todo o processo de produção do mel, principal atividade da comunidade de 1.014 habitantes.
A fazenda coletiva possui área de 294 hectares e ainda pratica a agricultura intensiva de batatas, trigo, milho, algodão, grão-de-bico, ervilhas, amendoim, sorgo, abacate e frutas cítricas.

O setor de pecuária é dividido nos segmentos leiteiro e de corte. No ar, há aquele aroma intenso de feno processado e uma enorme granja de galinhas. O kibutz está localizado a 4 km da fronteira com a Faixa de Gaza e foi um dos alvos dos ataques terroristas de 7 de Outubro no qual, em único dia, 1,2 mil pessoas foram assassinadas e 251 sequestradas em um festival de música eletrônica.
No kibutz há um museu dedicado à Guerra de Independência de Israel, ocorrida em 1948, logo depois de a Organização das Nações Unidas (ONU) ter declarado a criação dos estados israelense e palestino.
Na ocasião, a Liga Árabe – composta por Egito, Síria, Jordânia, Líbano e Iraque – realizou um ataque que parecia fulminante com o objetivo de literalmente “jogar os judeus no mar”.

No final do conflito, Israel, recém-nascido das mãos dos sobreviventes do Holocausto, venceu a guerra e se consolidou como um país independente. No museu, há um tanque egípcio estacionado ao ar livre para marcar a história do conflito.
Do kibutz, fomos visitar o local onde ocorreu o festival de música eletrônica e foi palco do massacre de 7 de Outubro. Há centenas de painéis com a fotografia e a biografia dos que morreram no local.
Uma escultura, em formato da estrela de David (seis pontas), foi construída sobre o solo com flores artificiais vermelhas nas pontas do hexagrama, com tom preto no núcleo para marcar o luto eterno de Israel em decorrência dos atos terroristas do Hamas.

No momento em que estávamos no Memorial das Vítimas do 7 de Outubro havia dezenas de soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF em inglês). Uns faziam a segurança do perímetro e outros estavam em visita ao local do massacre terrorista com o segundo maior número de vítimas no mundo, sendo superado apenas pelo 11 de Setembro em Nova York.
Na ocasião, tive a honra de assistir a uma cerimônia religiosa em homenagem às vítimas e recebi a bênção do rabino Yair Asher, que escreveu meu nome na prece que ele redigia.
Em respeito ao local sagrado, homens devem cobrir a cabeça. No meu caso, Daniel me deu um kipá (touca) de presente, que guardarei para sempre em armário do meu quarto. Nunca vou me esquecer do sentimento absolutamente chocante que inspira o memorial.

Saímos de lá arrasados e logo depois o Daniel me disse para olhar para frente e guardar meu testemunho em homenagem aos mortos para que a memória do massacre não seja esquecida pela história. Eu disse a ele que, como goy (não judeu), eu só poderia escrever essa reportagem.
Em seguida, retornamos a Ashkelon para almoçar em restaurante onde trabalha Snir Moyal, primo de Daniel. Os funcionários do local, assim como aconteceu com todas as pessoas que conheci em Israel, ficaram cheios de orgulho por ter um brasileiro à mesa, como se eu tivesse alguma importância.
Ao final, antes de pegar o trem de volta a Tel Aviv, trocamos abraços os três para celebrar nossa eterna amizade. Daniel ficou um mês em Fortaleza (CE) e fala português muito bem.
Ele me disse na despedida a palavra saudade. Eu não disse nada. Despedida é alguma coisa que me mata. Fui enxugar as lágrimas dentro do vagão, solitário como o homem que conversava com a janela da composição, mas sem dizer uma palavra sequer.
Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias