segunda-feira, 17 de junho de 2024

O secretário-geral da ONU quase me matou

Marcio Fernandes

O Ailton Lima já havia chegado ao bar à minha espera por dicas da Espanha. Eu tinha voltado de New Orleans naqueles dias. Impregnado de música boa e me recompondo do jambalaya do almoço. Pior arroz com feijão das Américas. Publicitário completo, foda em liderar criação, o Ailton no bar era whisky, cigarro, conversa qualificada e peixe frito. Eu falei de Madrid, primeira grande paixão na Europa. Toledo, Sevilha, Salamanca, Barcelona. Aí ele me mandou: “Vamos?” O País estava naquela saliência coletiva do fim de verão e eu sempre tive antipatia dobrada da extensão do carnaval. A folia continua após a Quarta-Feira de Cinzas nas ruas de Salvador. Nunca entendi o Brasil se vangloriar de ter as melhores escolas de samba do planeta e não reclamar do analfabetismo funcional.

Fomos em voos diferentes. Ailton me buscou no aeroporto de Lisboa com um carro francês 108 alguma coisa e seguimos pelas vias vicinais de Portugal em direção ao Porto. Sem ideia fixa e muita chuva na estrada. Eu conhecia GPS dos táxis de Amsterdam, mas aquilo não estava disponível. Eram mapa e placas. Vinte e um anos atrás a infraestrutura de transporte portuguesa estava começando a acontecer. Aliás, enquanto planejavam grandes autopistas, que foram construídas em alto padrão, havia uma capacidade instalada sucateada, pronta para virar tragédia.

Chuva em viagem é a roubada das roubadas. Caraca! Inverno em Portugal chove mesmo e aquele não poupou água. A viatura era fraca, a tempestade atrasava nosso progresso e a escuridão da estrada pavorosa. Não me lembro ao certo do horário, mas cruzamos o Rio Douro pela ponte que liga Castelo de Paiva a Entre-os-Rios em noite alta de lua tenebrosa. Finalmente chegamos ao Porto, que estava a 50 quilômetros dali. Eu morrendo de fome, não conhecia a cidade e estava doido para explorar a região. O Ailton me interfonou no quarto completamente perplexo, mas sem perder a calma, como sempre.

“Cara, liga a televisão! A ponte que acabamos de passar desmoronou e morreu muita gente!” Na noite de 4 de março de 2001 aconteceu o maior acidente rodoviário de Portugal. O caudal do Douro tragou a Ponte Entre-os-Rios por falta de manutenção. Negligência assumida pelo Estado e nunca exatamente reparada. Um ônibus e dois carros caíram no vão com saldo de 59 mortos. Só 23 corpos recuperados. O primeiro-ministro de Portugal à altura era António Guterres, atual secretário-geral da ONU. Sobrevivemos a ele e ainda pegamos nevasca expressiva na Galícia, depois de comer regiamente de improviso em restaurante na conhecida Vila Pouca de Aguiar. Até hoje ela é minha capital do contrafilé.

 

 

Um monumento às vítimas do acidente foi instalado no local. A imponente escultura, representando o Anjo de Portugal, é de autoria do arquiteto Henrique Coelho e em sua base estão inscritos os nomes dos 59 mortos no desmoronamento da ponte

Foto: Diário de Notícias

 

Marcio Fernandes

 

 

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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