segunda-feira, 17 de junho de 2024

O universo alienígena nas pinturas de Demir

 

Paisagens e cenários inusitados em que seres alienígenas, discos voadores e outros objetos vindos do espaço convivem naturalmente com  pessoas e bichos no ambiente rural ou no pacato cotidiano das cidadezinhas do interior. Esse universo ao mesmo tempo fantástico e tão familiar está presente na exposição Contatos imediatos, do artista plástico brasiliense Demir, que será inaugurada no próximo dia 14 de dezembro, às 19 horas, na Vila Cultural Cora Coralina.

 

 

A mostra, que permanece aberta para visitação até o dia 25 de janeiro de 2024, reúne 70 trabalhos inéditos do artista, entre desenhos, pinturas, serigrafias e objetos. Nesse conjunto de obras, Demir explora, de forma autoral, criativa e irreverente, as possibilidades desse insólito encontro entre ícones da ufologia e do imaginário pop dos quadrinhos e filmes de ficção científica e a rotina da vida interiorana brasileira, na lida no campo e nos espaços urbanos e também nas festas populares, dentro da tradição da arte popular.

 

 

A exposição Contatos imediatos é a primeira grande mostra individual do artista de 64 anos, nascido Valdemir dos Santos e que adotou o nome artístico de Demir, por ser o seu apelido desde a infância. A organização da exposição é uma iniciativa da editora HidrolandsGrafisch Atelier, do artista plástico Marcelo Solá, e a curadoria é de Débora Duarte.

 

 

Colecionador da obra de Demir, com um acervo que já reúne 40 trabalhos, Solá se interessou pelos desenhos e pinturas do artista desde quando o encontrou pela primeira vez, há cerca de três anos. Em uma de suas muitas viagens a Pirenópolis, quando passava por Olhos d’Água, Solá avistou um senhor pintando em um cavalete improvisado na calçada da casa de um morador local. Resolveu voltar e comprou uma “pinturinha” de Demir, o artista do cavalete. Esse encontro fortuito marcou o início de um contato mais estreito entre ambos.

 

 

Um pouco depois de conhecer Solá, Demir comprou uma Kombi e a transformou em uma casa-ateliê sobre rodas, a bordo da qual passou a percorrer a região de Pirenópolis e também da Chapada dos Veadeiros para expor e comercializar seus trabalhos. A temática rural-extraterreste de seus desenhos e pinturas e a Kombi devidamente customizada por ele chamaram a atenção não só de turistas e apreciadores de arte, mas também da imprensa. Apesar do sucesso junto ao público, porém, Demir resolveu encerrar essa temporada como artista itinerante, vendeu a Kombi e hoje vive em uma chácara em Brazlândia, cidade-satélite de Brasília, onde mantém seu ateliê.

 

 

O artista afirma que sempre foi muito aficionado por tudo que diz respeito à ufologia, um tema presente não só na sua arte, mas também nos seus sonhos. “Sonho sempre com UFOs, luzes, coisas estranhas no céu”, conta.

 

 

Apesar de só estar tendo a chance agora de mostrar seus trabalhos em uma grande exposição individual, a trajetória artística de Demir vem de longa data. Filho de migrantes nordestinos, de Natal (RN), que se mudaram para Brasília, ele diz ter herdado o talento para a arte da mãe, dona Marina, que trabalhava como poteira. Na escola – ele cursou apenas o Ensino Fundamental –, interessava-se sobretudo pelas aulas de Educação Artística. Aos 18 anos, começou a produzir suas primeiras aquarelas e não parou mais.

 

 

No final da década de 1980 e nos anos 1990, participou de várias edições dos salões de arte naïf de Brasília e de outras coletivas. Mas nem sempre o que ganhava com seus trabalhos dava para sustentar a família de seis filhos e, por vezes, Demir se viu obrigado a se dedicar a outras atividades, a exemplo de quando trabalhou como garçom no Ministério da Agricultura na capital federal.

 

 

Hoje, divorciado, e vivendo sozinho na sua chácara em Brazlândia, ele se dedica a produzir intensamente. Para a exposição a ser inaugurada na Cora Coralina, experimentou diversas técnicas e suportes, inclusive cerâmica e material reciclado, como pedaços de cano, restos de madeira, papelão, embalagens – “os restos do mundo em decadência”, como define a curadora Débora Duarte. Entre os trabalhos que vai mostrar, Demir destaca quatro séries sobre sua história em que ele próprio aparece como personagem, como em uma HQ.

 

 

Curadoria

A exposição Contatos imediatos também marca a estreia de Débora Duarte, 28 anos, como curadora de arte. Débora é professora e doutoranda em Teoria da Literatura Latino-Americana na UnB, com uma pesquisa sobre a provisoriedade na estética contemporânea, articulando as práticas artísticas atuais ao conceito de inespecificidade.

 

Para fazer a seleção dos trabalhos da exposição, Débora visitou o ateliê do artista em Brazlândia e o que lhe causou impacto logo de início foi a presença recorrente da figura do extraterrestre em interação com pessoas e animais, na vida cotidiana e ordinária, realizando as mesmas atividades dos humanos. Ela relacionou esse motivo onipresente na obra de Demir com as teorias pós-humanistas da pesquisadora brasileira Juliana Fausto e da norte-americana Donna Haraway, que abrem espaço para pensar uma relação interespécies fora da lógica colonizatória e exploratória. Sobre esse aspecto, Débora ressalta ainda que fez questão de se desfazer do termo “naïf” para classificar o artista – em direção oposta à forma como sua obra era catalogada nas exposições de arte naïf em Brasília –, já que ele próprio prefere se autodenominar como um “artista primitivo”.

 

Todas as obras da exposição Contatos imediatos estarão à venda, inclusive duas serigrafias, com 30 exemplares cada uma, impressas pela  HidrolandsGrafisch Atelier.

 

 

Serviço

Exposição:Contatos imediatos

Artista: Demir (DF)

Data de abertura: 14 de dezembro (quinta-feira), às 19 horas

Local: Vila Cultural Cora Coralina, Rua 23 c/ Rua 3, Setor Central. Telefone: (62) 3201-9863

Visitas: até 25 de janeiro de 2024, de segunda a domingo, das 9 às 17horas

 

 

Com: Rosângela Chaves

 

Crédito das fotos: Paulo Dourado

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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