segunda-feira, 17 de junho de 2024

O universo na redoma de vidro

Terrário Bioma

 

Quem poderia imaginar um universo numa garrafa? Pois é possível. Não um universo com planetas, sistema solar e buracos negros, como tem mostrado o telescópio James Webb, mas um bioma autossustentável, um mundo totalmente equilibrado, que produz o que consome e consome o que produz. Contém água, terra, seres vivos e bactérias que fazem a “mágica” acontecer. Parece coisa de filme de ficção científica, mas é real, simples e acessível.

 

A história de um engenheiro elétrico aposentado cultiva um jardim dentro de uma garrafa há quase 57 anos chamou a atenção. Em 1960, na Inglaterra, David Latimer ficou curioso para saber o que aconteceria se colocasse algumas plantas em uma garrafa de vidro e fechasse o recipiente. Ele usou uma garrafa redonda e colocou um pouco de terra, adubo, um broto e 120 mililitros de água. Doze anos depois, em 1972, ele regou o jardim pela segunda – e última – vez. Hoje, a planta sobrevive em sua casa sem precisar ser regada. O que era apenas uma muda, cresceu e envolveu todo o recipiente, que permanece fechado há 45 anos.

 

O inglês David Latimer e seu terrário

 

Você deve estar se perguntando como o jardim sobrevive, não é mesmo? O espaço fechado cria um ecossistema autossuficiente dentro da garrafa, em que a fotossíntese utiliza a luz do dia para fornecer energia para a planta se manter e crescer, e os nutrientes são sempre reciclados dentro do recipiente. David, o inglês, espera doar seu experimento para seus filhos cuidarem quando ele se for, ou então, para a Sociedade Hortícola Real, da Inglaterra.

 

Harmonia e autossustentabilidade

O primeiro terrário surgiu por acaso, por causa de experiências com borboletas em vidros selados, feitos pelo médico inglês Nathaniel Bagshaw Ward (1791–1868), apaixonado por botânica. Acidentalmente ele descobriu que um esporo de samambaia e uma espécie de grama germinaram e estavam se desenvolvendo dentro do recipiente de vidro. A partir daí ele acompanhou o desenvolvimento dessas plantas por quatro anos até seu florescimento. Porém, algo não esperado aconteceu. A ferrugem da tampa que fechava o frasco acabou comprometendo a qualidade do ar e as plantas morreram. O modelo da caixa de vidro que ele utilizou passou a ser considerada a precursora do terrário moderno, hoje conhecida como caixa Wardiana.

 

Terrários Bel Fiore

 

Mas o que é um terrário?

Um terrário é um jardim montado em um vidro fechado, que simula um ecossistema em equilíbrio. Nesses microcosmos podem ser reproduzidos cenários incríveis. As plantas se desenvolvem e se alimentam por meio de fotossíntese e a água faz seu ciclo desde a condensação, mantendo a umidade equilibrada no microambiente.

 

Terrários Bel Fiore

 

Para sua composição utilizam-se terra, pedras, plantas e miniaturas, possibilitando composições únicas e exclusivas. Além de decorar, um terrário pode registrar cenas cotidianas, festas folclóricas, formações geológicas, relevos, ambiente marinho, sempre buscando imitar a natureza.

 

Para quem gosta de plantas e não tem tempo nem espaço, o terrário pode ser uma opção. “O terrário dá pouco trabalho na sua manutenção, mas é importante que haja alguns cuidados na sua montagem”, informa a arquiteta e paisagista Isabel Coelho, da Bel Fiore, em Goiânia. Segundo ela, é preciso de uma higienização minuciosa do recipiente e dos materiais, até a escolha das espécies a serem utilizadas, para garantir sua durabilidade. “O processo de manutenção restringe-se a podas periódicas e regulagem da umidade, se necessário”, alerta. Há terrários que permanecem por muitos anos em equilíbrio, sem requerer qualquer intervenção.

 

Arquiteta e paisagista, Isabel Coelho / Foto: Rimene Amaral

 

Isabel explica que para criar um terrário é preciso de um vidro fechado, além de uma temática, miniaturas, plantas, pedras, areia, carvão e pedriscos. É um trabalho minucioso e de paciência. “Como ferramentas para se fazer um terrário usamos, além das pinças, outras ferramentas adaptadas, como palitos, rolhas, colheres, mangueiras, etc. Já existem no mercado os kits prontos para se fazer um terrário”, informa a arquiteta.

 

Terrários Bioma / Fotos: Fran Velasco

 

Em Goiânia, o biólogo Leandro Georges, da Biomas – especializada em minijardins e terrários – conta que os terrários saíram das salas de aula para dentro de casa. Se antes eles eram utilizados em aulas de ciências para ensinar sobre o ciclo da água e o crescimento das plantas, hoje estão inseridos na decoração contemporânea”, relata. Em versões simples ou sofisticadas, podem ser usados como adornos de mesas ou estantes, ou onde mais a imaginação sugerir. Ele criou a marca especialmente para um público urbano, que não tem muito espaço nem tempo para se dedicar às plantas. “Por isso a proposta de minijardins e biomas”, constata.

 

Os terrários fechados podem ser criados em peças de vidros, muitas delas recicladas, como garrafas de gin, vinhos, sucos de uva, cachaças e até mesmo de molho de tomate. “As garrafas de vidro, ao invés de serem descartadas em lixo comum, podem ser recicladas e serem usadas como objetos de decoração e transformadas em lindos terrários!”, sugere Leandro Georges.

Biólogo Leandro Georges / Foto: Fran Velasco

 

Na hora de fazer um terrário é preciso levar em consideração a harmonia nas necessidades do conjunto de plantas que será utilizado, em relação à umidade, luz, e características similares, além da perfeita higienização em todo o processo e materiais. Levando em consideração todos os cuidados mencionados, qualquer pessoa pode fazer um terrário.

 

Os recipientes, como destacou Leandro, podem ser recipientes de vidro de todos os tamanhos, garrafas, garrafões, potes herméticos… “Há, ainda, a possibilidade de utilizar vidro com iluminação embutida na tampa, a exemplo dos aquários, o que confere um efeito mais charmoso ao seu terrário. Depois de pronto é só observar a beleza do seu bioma particular”, arremata Isabel Coelho.

 

E, acredite, é relaxante!

 

 

Fotos: Bel Fiore

 

Fotos: Fran Velasco – @franvalasco

 

Foto Isabel Coelho: Rimene Amaral – @rimene @rimenepb

 

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Este post foi escrito por: Rimene Amaral

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

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