segunda-feira, 17 de junho de 2024

Os três graus de antipatia da Carlota de Melo

 

Marcio Fernandes  —  A minha avó Carlota, nascida em 1910, era a própria expressão genética da intolerância dos Melo. Não importa se um Melo legítimo é do Minho (Portugal), de Uberlândia (MG) ou de Rio Verde (GO). A família é conectada por produzir, com espontaneidade, a cultura da sinceridade antipática, o que não tem nada a ver com esnobismo, grosseria ou preconceito. Pode ser antipatia da maneira como uma pessoa conversa. Pode ser da embalagem do Omeprazol. As antipatias são normalmente motivadas em sentimento atávico de não tolerar a inconveniência do roceirismo e da indolência. A conduta causa muitos problemas de convívio social, pode ter alguma coisa de Síndrome de Asperger, mas isso pouco importou aos 87 anos da Carlota de Melo. Hoje, 26 de dezembro, ela faria 112 anos.

 

Para conferir pragmatismo ao procedimento, minha avó decidiu classificá-lo em três graus. Havia a Antipatia, que era um descontentamento de fundo, sem circunstâncias agravantes. Depois, a Antipatia Dobrada. A situação para chegar neste nível de aversão era grave e não rara. Podia ser de comercial de loja de eletrodomésticos ou de parente por afinidade em passagens regulares na hora do almoço. Por último, a Antipatia Mortal. Embora todas as anteriores fossem de alguma forma inegociáveis, a Mortal era definitiva. Viva. Riscada. Guardada no freezer. Geralmente, Dona Carlota dedicava o grau máximo de antipatia aos médicos que davam diagnóstico do qual ela discordava e ao meu pai, genro de indulgência incomensurável.

 

Dona Carlota tomava antipatia de uma pessoa do inusitado. Lembro que ela tinha horror de determinado ótimo prefeito de Goiânia (GO). O problema era que ele dava entrevista mexendo com as mãos e isso multiplicava a gastura da Melo. De uma hora para outra, ela tomou antipatia da maior farmácia que havia em Campinas, bairro goianiense. Como era hipocondríaca seletiva, as receitas só podiam ser aviadas no centro da cidade. Inclusive o shampoo. Ela não tinha pudor de dizer que eu era o neto favorito. Mesmo assim era um amor de pouco contato, mas de muita palestra, como ela chamava aquela conserva reservada. Era saudosa da docilidade da Dona Gercina, mulher de Pedro Ludovico, fundador de Goiânia. Gostava de elogiar a elegância do ex-governador Irapuan Costa Júnior, para ela o único político culto de Goiás.

 

Outra característica da Família Melo é a obsessão pelo asseio. Se você quisesse despertar a Antipatia Mortal da Carlota era oferecer a água que vinha de um poço artesiano profundo da chácara do meu pai. Era raro à época ter em casa galão de 20 litros de água mineral. A Carlota tinha o recipiente de vidro pesado, mesmo assim ela ainda coava a água antes de beber. Minha avó provavelmente teria sobrevivido à pandemia pelos hábitos sanitários. Detestava o cumprimento manual. Achava que as mãos eram vetor da maioria das patologias.

 

Péssima cozinheira, o máximo que fazia era coar o café para fumar um cigarro e algum Arroz Maria-Isabel que não está entre os pratos da boa lembrança. Naquela altura, a transmissão da TV se encerrava a uma da manhã. Ela ainda lia um pouco e só acordava por volta do meio-dia. Com mau humor matinal típico de toda Melo, Dona Carlota, que tinha Antipatia Dobrada da comida de minha mãe, rigorosamente todos os dias reclamava daquela mesa farta e apetitosa. Não falava diretamente, mas se autoquestionava em franca indignação: “Sou hipertensa? Tenho Diabetes? Sou Cardíaca? Estou internada?” Era a senha para despertar a revolta da minha mãe e sai de perto depois que duas Melo se desentendem.

 

Para pronunciar a antipatia, Dona Carlota tinha alguns recursos linguísticos. Quando discordava de uma notícia do Jornal Nacional, hoje fake news, dizia que o apresentador, Cid Moreira, iria hospitalizá-la de antipatia. Pegava o telefone e esparramava com a produção da TV Anhanguera, afiliada da Globo em Goiás. Caso você fizesse um ato repetitivo do desagrado da Carlota, ela imediatamente falava que iria vomitar de antipatia. Pobre de família rica, minha avó sempre teve uma pajem para socorrê-la nas tarefas diárias, que eram de mínimo esforço. Todas foram sistematicamente alvo do primeiro grau de antipatia da Carlota em momentos de protesto ao calor de Goiânia.

 

Ela escolhia alvos permanentes para destinar a antipatia. Para espezinhar meu pai, intelectual discreto, a Carlota olhava a biblioteca, a sala de som qualificada e dizia: “Nada disso adianta! Leitura não entra na cabeça de roceiro!” Minha avó tinha certa antipatia de uma bisneta, criança muito instruída para idade e linda, a quem classificava de letrada por ter radar ligado em todas as conversas dos adultos da casa.

 

A Carlota de Melo era muito engraçada sem dar uma gargalhada. Eu era o álibi obrigatório das consultas como Dr. Luiz Amazonas, cardiologista preferido. A primeira coisa que eles faziam era acender um cigarro no consultório. Ela pedia ao médico confirmação, para eu transmitir à família, de que o tabagismo não era prejudicial à saúde. Uma das tiradas grandes dela foi o Borbotel. Um amigo próximo chegou em casa e disse empolgado que a sogra havia adquirido um hotel na Avenida Tocantins, Goiânia. De imediato, minha avó acabou com o entusiasmo do sujeito: “Hotel? Não! Borbotel, pois sua sogra é dona de bordel!”. Que falta a Carlota faz nestes tempos politicamente vigaristas!

 

Marcio Fernandes é jornalista

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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7 comentários em "Os três graus de antipatia da Carlota de Melo"

  • Marcelo F. de Melo Marcelo F. de Melo disse:

    Texto de Márcio não é escrita qualquer, ele consegue retratar uma época e não só um simples retrato, porque sua tela tem movimento, tem vida, porque feita de verdades.

  • Avatar Juan Pratginestós disse:

    Gostaria da tua vó, com certeza!Cronica crítico-afetiva das melhores!

  • Avatar Hulda Morais disse:

    Eu teria sido amiga de Dona Carlota !

  • Avatar Sylvia Melo disse:

    Marcio, que texto maravilhoso, voltei no tempo e me vi proseando com a Carlota na casinha nos fundos da casa da Susy, passando um café e pitando, como ela mesma dizia: “Sylvinha, vamos pitar?” Eu dizia que sim e ela “então vai passar um café”… oh saudade danada, oh saudade sem jeito!!
    Tenho certeza que de mim ela não tinha antipatia.
    Lembro tbm dela vindo almoçar com a mãozinha no bolso da bata e qd a Suzy virava as costas ela sapecava sal na comida que era feita separada pra ela, sem sal. Kkķkkk

  • Avatar Luciana Lombardi disse:

    Que texto maravilhoso! Mergulhei nessa época da dona Carlota, em cada detalhe contado. Parabéns!

  • Avatar Noemy Faria disse:

    Que texto maravilhoso. Como sempre, fui conduzida no tempo, me senti com antipatia da Carlota Melo. Infelizmente tenho uma irmã desse jeitinho. Intolerável. Kkkk
    Te amo❤️

  • Avatar Leonardo Massula disse:

    Conheci pouco e lembro vagamente da tia Carlota, mas as histórias sobre ela, contadas pelo Márcio e pela minha mãe, são hilárias e repletas de sarcasmo.

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