sábado, 18 de maio de 2024

Passagem por um lugar gentil chamado Santa Cruz

 

Marcio Fernandes – Dia 1 – Nem parecia que eu estava viajando de avião no Brasil. Os voos que partiram de Goiânia em direção a Guarulhos e do principal aeroporto do País para Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, estavam rigorosamente no horário.

 

Para melhorar as expectativas de que nada funciona no bananal polarizado, as aeronaves da claudicante companhia Gol eram novas, estavam limpas e ainda serviram gratuitamente, no trecho internacional, um sanduíche com finas lâminas de queijo e presunto de peru com suco de laranja em caixinha com sabor de Tang groselha.

 

Tudo muito químico e artificial, mas um espetáculo a se considerar que a empresa não é de fazer cortesia e está em processo semifalimentar. O voo de 3h20 entre Guarulhos e o Aeropuerto Internacional Viru Viru foi sensacional, tendo em vista que eu estava no corredor e com a cadeira do meio vazia.

 

 

Igual fortuna não tiveram três passageiros que compuseram a fila da morte na posição 7 à esquerda da aeronave. Eram três gordinhos que não se conheciam e talvez não queiram nunca mais se ver.

 

Na janela, um agente americano do Peace Corps com cara de redneck viajou espremido suando bicas por conta da administração do espaço de um flamenguista muito acima do peso que ocupava a posição do meio.

 

 

O cara conversou sobre futebol a viagem inteira com um conhecido na fila dianteira. Além de tolerar o chatíssimo assunto, a brasileira da poltrona do corredor foi obrigada a esticar as pernas fornidas no espaço de circulação da aeronave, uma vez que estava sendo expulsa para fora do assento pelo espaçoso mentecapto de uniforme do time carioca.

 

Santa Cruz de la Sierra é a porta de entrada da Bolívia por ter voo direto de São Paulo e o maior centro econômico do país. Apesar da imponente catedral, cuja pedra fundamental data de meados do século 16, o aglomerado urbano de 1,4 milhão de habitantes, localizado nas planícies orientais da Cordilheira Andina, lembra qualquer cidade brasileira mantida pelo agronegócio.

 

Tem favela e bairros chiques. Carros caindo aos pedaços e sofisticadas camionetes. Maioria miscigenada e elite caucasiana. A diversidade é tanta que famílias de mórmons em trajes negros e sisudos passeiam ao sol do meio-dia escaldante como estivessem nas ruas de uma cidade de Utah.

 

 

Não há nada de turístico que valha a pena mais do que uma noite de passagem para quem tem Sucre como destino. Mesmo situada em um dos países mais pobres do planeta, Santa Cruz confirma a tese de que miséria não gera violência e sim o crime na suas modalidades organizadas e desorganizadas.

 

Para o padrão de terceiro-mundo, a cidade é limpa e pode servir de exemplo para o prefeito de Goiânia se mirar na melhoria do serviço urbano. Há vendedores ambulantes, mas zero de camelôs a dominar as calçadas. Não há engarrafamentos e o transporte público funciona baseado em vans coloridas.

 

Outro lado positivo: definitivamente não há aquela cachorrada sem dono nas ruas nem gatos vadios. O clima é quente e úmido, como em todo ambiente tropical de baixa altitude que se avizinha da Amazônia, mas quando a noite cai, a lua traz brisa reconfortante.

 

 

Detalhe muito bacana que também pode servir de exemplo ao goianiense maleducado. Por aqui não se vê motorista a avançar o sinal vermelho e é cultural o respeito à faixa de pedestre.

 

Se há algo que diferencia o centro histórico em construções de estilo andaluz em arcos e colunas é a barafunda da fiação aérea. E se há algo que dignifica o boliviano é a gentileza. Mesmo muito pobres, eles são extremamente solícitos e agradáveis.

 

Texto e fotos Marcio Fernandes

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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4 comentários em "Passagem por um lugar gentil chamado Santa Cruz"

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