sábado, 18 de maio de 2024

Pavilhão Chinês: templo de maravilhosas quinquilharias

 

O Pavilhão Chinês está catalogado nos almanaques virtuais de turismo como um dos lugares secretos de Lisboa. Para entrar, o freguês tem de tocar a campainha do número 89 da Rua Dom Pedro (Príncipe Real), mas a escandalosa e gigantesca porta vermelha com inscrições em mandarim já entrega que lá dentro algo diferente se passa. O burburinho dos frequentadores também não deixa dúvidas. Toque e entre logo.

 

Passava pouco das 19 horas quando alcançamos o endereço, indicação de Luiz Gravatá, que sabe tudo de além mar. Fonseca, o garçom mais antigo do pedaço, nos atendeu. “Queres chá?” – Não, pensamos num vinho. Como a casa já trocava de função, ele nos aconchegou num cantinho do segundo e gigantesco salão. Começava uma viagem espetacular pela coleção de antiguidades e quinquilharias de Luis Pinto Coelho, espécie de Ricardo Amaral lisboeta.

 

Em nichos, ou mini vitrines, que vão do chão ao teto – pé direito gigante – há de tudo, maioria peças em miniatura: bonecas, soldadinhos, tanques de guerra, mapas, medalhas, estatuetas, porcelanas e um sem fim de objetos não-decifráveis. Um museu particular com acervo generalizado que não demandou muita bebida para me inebriar. Aliás, Luiz fundou o Pavilhão para ter onde guardar as suas coisas e ganhar dinheiro com isso sem ter de se desfazer delas.

 

É tipo uma imersão numa realidade paralela, de tão caprichosa é a disposição pensada de cada objeto – e são milhares. Fundado em 1986, tem cinco salões, cada um com decoração diferente – não segue um tema, mas a história de seu dono. Mesinhas para compartilhar em dupla, sala de drinques e sanduíches, mesas de sinuca. Percorremos cada um dos ambientes numa verdadeira viagem pelo tempo.

 

Ao final, com a garrafa de vinho consumida, Fonseca, que foi o garçom-guia da noite, nos apresentou o livro de visitantes e nos convidou para um autógrafo com nossa melhor impressão. Nem me lembro o que escrevi, mas foi ao lado de um rabisco de Fernando Henrique Cardoso. Depois, lançou um desafio: “Se chegares pouco perto da quantidade de peças aqui expostas, leva tudo”. Nem arrisquei; não tinha dinheiro para o excesso de bagagem.

 

 

A saga de Pinto Coelho

 

A história começou em 1953 quando, aos 20 anos, Luís Pinto Coelho viajou – com sua mulher, Alice, para Paris e se encantou pelo bar-restaurante Procope. Ficou sempre com a ideia de um dia abrir um bar como aquele. Abriu quatro e assinou a decoração de outros bares e discotecas: a Summertime, a Twins e a Swing (no Porto), a Diabo (em Lisboa) e o Rasputine, na Alapraia, em Cascais. Por influência da sogra, era colecionador e negociante das antiguidades, que foram a base das suas decorações.

 

Nos anos 60, com a mulher e mais três sócios, criou o bar-boutique A Outra Face da Lua, na Rua Rosa Araújo. Maria João, a filha mais velha de Luís Pinto Coelho, explica que “era um bar fabuloso, todo em arte pop”. “Se fosse hoje, seria um bar fundamental da noite em Lisboa”, continua. Funcionou durante dois anos, Luís voltou ao negócio das antiguidades e foi aí que se lembrou do Procope de Paris. Em 1972, na zona das Amoreiras, no alto de um pátio, nascia o Procópio. Reza a lenda que ainda hoje é freqüentado por espiões, jornalistas estrangeiros, agentes da CIA e muitos militares. “Era um bar de complô, o centro dos intelectuais da época”, diz Maria João. O casal separou-se e o Procópio passou a ser gerido por Alice.

 

Luís partiu para outro projeto: a loja de antiguidades. Mas nunca desistiu dos bares. Fundou e passou à frente vários spots até que em 1982, nasce o Pavilhão Chinês, um dos últimos projetos de Pinto Coelho, lisboeta – que morreu em 2012 – apaixonado por cães e muito bem-disposto a empreender.

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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