quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sabatinas na republiqueta desalmada: parte I – o Mineirinho

Província de Goyaz, agosto de 1896.

Senhora editora,

 

Junto a estas linhas, vai o desejo de que vos encontre bem de saúde e ainda animada para essa tão pesada jornada que abraçastes: a de observar, ler e escrever acerca de uma republiqueta que, até o presente, não vingou.

 

Embora não tenha honrado convosco o compromisso assumido de escrever regularmente para a coluna que tão generosamente me confiastes, não o dei por esquecido, tampouco me julguei desobrigada da palavra empenhada. Meu prolongado silêncio não se deveu à falta de assunto; antes, ao muito que me chegou aos ouvidos e ao tempo de que necessitei para separar os fatos dos rumores, as verdades dos interesses e as notícias das fábulas imaginadas por quem as conta. Escrevo-vos, pois, para retomar o compromisso interrompido, se ainda me conservais o espaço e a confiança.

 

Há muito o que dizer sobre o Brasil por agora e, sobretudo, sobre seus homens e os curiosos modos pelos quais alguns pretendem governar nossa pátria tão gentil.

 

Caiu-me aos ouvidos, vindo de bocas generosas e cérebros afiados, sobre as sabatinas às quais se submetem os candidatos à presidência do país. Que assombro! Arrepia-me saber que o brasileiro trocou seu Imperador por propostas tão rasteiras. Para onde irá essa grande nau, acéfala de membros pensantes?

 

Da primeira, a arguição do mineiro, muito tive notícia e muito me deliciei em ouvir, pois me trouxe à lembrança meu compadre, o dr. Afonso Arinos de Melo Franco, amizade da qual desfruto desde menina, quando o pai, o juiz Virgílio de Melo Franco, serviu aqui na Província por anos.

 

Conservo com dr. Afonso correspondência e respeito, e hoje, advogado de boa reputação, leciona em Ouro Preto, a capital das Minas Gerais. Desde pequeno meu compadre é contador de causos e dentre suas histórias, sempre conta de um capiau de nome “Joaquim Mironga”, vivente para as bandas das Gerais que, fiel ao seu patrão, entra disfarçado nas Taperas para assuntar sobre os inimigos “caramurus” e impedi-los de qualquer êxito contra seu senhor.

 

Ali, na inquisição presidencial, senti a forte presença do disfarce. Senti a Tapera como lugar ainda presente, embora estivesse o inquirido no seu século, usando sotaque deste meu oitocentismo.

Não combina, madame!

 

Ninguém é tão francamente capiau nesse seu vinte e um.

 

Li ainda sobre uma peça de teatro que, já concluídos os ensaios, será encenada ano que vem no meu Rio de Janeiro. Trata-se de “A Capital Federal,” de Artur Azevedo, que conta a história de outro mineiro, Eusébio, fazendeiro de São João do Sabará, que vai com a família para a então Capital. Talvez desse, metido a entendedor, se assemelhe mais o candidato.

 

Coitado do homem. Dos dois homens, ou melhor, dos três mineiros. Joaquim Mironga, com suas boas intenções, não conseguiu sair ileso dessas empreitadas; ao contrário, corria pelos sertões das Gerais debaixo de bala, colecionando perdas. O outro, Eusébio, de arrogância em arrogância, era visto na Capital como um provinciano deslumbrado, convencido de que ser fazendeiro seria bastante para fazê-lo compreender uma cidade grande, muito diferente dos ermos aos quais estava acostumado. Perdeu-se entre aparências, logros e vaidades. E por fim, o terceiro mineiro, o candidato Novo. Este quer convencer nossa pátria de que está apto a governá-la. Tem a confiança de quem julga conhecer o mundo porque conhece o próprio terreiro, onde cria galinha e planta erva-doce para fazer cheirar o pão de queijo. Mironga sabia ouvir, contar homens, reconhecer armas e medir perigos. Eusébio, como se verá, aprendeu alguma coisa com os próprios enganos. O candidato, porém, já havia prevenido: ele não ouve; ele “ouvo”. Ouvo madame!

 

 Deve ter suas virtudes, esse Zema, é certo! Mas não dominar sequer sua língua materna é constrangedor senhora editora! Quem, ainda mais de vida pública, desperdiça tão grandioso idioma? Pergunto-vos e respondo-vos na mesma toada: aquele que mata a língua portuguesa sob pretexto de dialeto mineirês, não se envergonha de ter posto a correr o grande monarca deste país e não se envergonhará de qualquer outra estupidez! Mais extraordinário, porém, foi ouvi-lo inaugurar, naquela mesma noite, uma nova escola de Direito Criminal das Gerais. Segundo aquele tal, somente comete crime quem consegue levá-lo adiante; quem apenas o inicia, prepara ou tenta, sem alcançar o resultado desejado, não seria criminoso. Hei de escrever imediatamente ao compadre Afonso, pois sua cadeira é de Direito Criminal. Devo alertá-lo que aboliu-se a tentativa nos anais criminais.

 

Fiquei a pensar em Deodoro, aquele alagoano irritante que, vez ou outra, rouba-me o sossego. Aquele tal, numa manhã de novembro, saiu à frente de tropas, derrubou o gabinete, apeou nosso Imperador e, quase sem encontrar resistência, entregou-nos esta República que ninguém lhe havia pedido. Não houve batalha, não correram rios de sangue, nem precisou o marechal disparar sobre o Paço para que o Brasil amanhecesse Monarquia e adormecesse republiqueta. Ainda assim, madame, foi golpe e dos bem-sucedidos.

 

Segundo o mineiro, talvez Deodoro somente tenha dado um golpe porque conseguiu consumá-lo. Se houvesse fracassado, não teria tentado golpe algum: seria apenas um velho militar passeando com soldados pelo Campo de Santana, talvez culpado de alguma desordem, jamais de pretender tomar o poder.

 

Eis a curiosa doutrina: o golpe que fracassa não existiu e o que triunfa deixa de ser crime e passa a chamar-se governo. Deodoro, porque venceu, tornou-se presidente. Se perdesse, conforme a regra mineira do pretendente à presidência, seria inocente. Com semelhante raciocínio, jamais haverá golpistas neste país, apenas governantes afortunados e vândalos sem sorte.

 

Deodoro não precisou fuzilar o Imperador para derrubá-lo. Bastou-lhe cercar o poder e declarar finda uma ordem que o povo não havia mandado findar. Talvez o candidato desconheça o nascimento da própria República que agora ambiciona presidir.

 

Que lástima!

 

Findo este interrogatório mineiro, aguardemos o do meu conterrâneo. Enviarei pela missivista meus comentários, até terminar essa arguição pública dos pretendentes à Presidência.

 

Abraço vosmecê com agradecimento genuíno no coração e assino simplesmente como

 

Sinhá

Este post foi escrito por: Sinhá

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