domingo, 30 de agosto de 2026

Sabatinas na republiqueta desalmada: parte IV – a convocação dos desencarnados

 

Província de Goyaz, aos derradeiros minutos de agosto de 1896.

 

Senhora Editora,

 

Madame, algo de muito assombroso sucedeu-se acá na Província e confesso, se não tivesse visto o que vi com esses olhos que a terra há de comer, por certo pensaria ser mais uma dessas histórias de assombração deste cerrado sem porteira. Rogo-vos que leiais com atenção tudo o que aqui vos contarei e, se não for da conveniência deste periódico publicá-lo, ficai à vontade para suprimir esta coluna. Eu compreenderei, podeis crer.

 

Não omitirei palavra, garanto-vos, tampouco darei aos eventos cores que eles não tiveram. Minha narrativa será fidelíssima aos acontecimentos, acreditai.

 

Ao me preparar para vos tecer considerações sobre a sabatina do Comandante em Chefe da nossa amada pátria, fui surpreendida com a chegada de visitas inesperadas e não pude, até este momento, terminar as ponderações sobre o que vi, pois o sobrenatural preparou coisa diferente.

 

Ponha tento:

Do meu Rio de Janeiro, nossa amada capital federal, apearam aqui na Província, os amigos Sinhaninha e seu marido Oduval, trazendo malas, novidades, poeira e muita alegria. Sinhaninha é mulher moderna, curiosa, à frente do seu tempo e afeita às modernidades americanas. Oduval parece ser-lhe o marido ideal: sempre em conluio com as ideias da mulher. Constituem, assim, um casal perfeitamente ajustado, mesmo quando o assunto foge ao comum, como este que estou a narrar a vosmecê.

 

Ao revés de se mostrarem exaustos pelo longo sacolejar da carruagem nessas estradas de meu Deus, apresentaram-se descansados e bem-dispostos, a contar novidades da antiga Corte Imperial.

 

Servido suco e pão de queijo, veio a revelação de tão inesperada visita aos confins do Brasil: o desejo dos dois era experimentar certo engenho importado dos Estados Unidos da América entre os simplórios goianos. Segundo o casal, os caipiras, por viverem mais próximos da terra e menos contaminados pelos ruídos da civilização, conservariam os sentidos abertos às manifestações do outro mundo.

 

Em palavras menos adornadas, madame, Sinhaninha e Oduval haviam atravessado léguas e estradas mal-acabadas, convencidos de que a ignorância dos trabalhadores da roça facilitaria a conversa desses com os mortos. 

 

Com os mortos, madame!

Que equívoco, senhora, que grande equívoco!

Oduval logo desembarcou uma caixa de madeira, em cuja tampa lia-se pirografado: OUIJA.

 

Estremeço de lembrar. Que infortúnio vieram os dois trazer para essas bandas?  Deviam saber que conversar com mortos é causo de polícia neste Brasil. Nada bastou argumentar. Logo dispuseram sobre a mesa uma tábua alfabética, coberta de letras e números e pediram a Sansão que convidasse alguns dali para às oito em ponto estarem na sala para uma experiência espiritual.

 

De nada serviram minhas admoestações, madame! De nada!

 

Deviam saber que, desde que esta República meteu o espiritismo no Código Penal, conversar com mortos pode terminar em conversação ainda mais desagradável com o delegado.

 

Mas mesmo com minha contrariedade expressa, às oito em ponto minha sala parecia casa de comércio, ou comício político.

 

Montado o aparato na mesa no centro da sala, alguns curiosos espichavam o olhar para tábua dos espíritos sem ideia de como poderia, daquilo ali, sair uma conversação com o outro lado.

 

Com ar solene, Sinhaninha abre a sessão, chamando para perto da mesa Nhô Quim, Seu Ramiro e Augustinha, que preferiu ficar na cadeira encostada na porta. Eu me acheguei.

 

– Tem alguém ai?

Todos nós com as mãos na vareta que estava sobre a mesa. Nada aconteceu.

– Há algum espírito entre nós?

A vareta começou a mexer, formando a palavra SIM.

Não preciso vos dizer do pavor que todos na sala sentimos, à exceção do casal de fora, que, pelo semblante, demonstravam satisfação desmedida.

-Quem sois? 

A vareta começou a soletrar:

T — I — R — A — D — E — N — T — E — S.

Nhô Quim retirou a mão.

— Inteiro?

A tábua hesitou.

M — A — I — S O — U M — E — N — O — S.

— Como assim? — perguntei.

A peça respondeu:

A — C — A — B — E — Ç — A

V — E — M

D — E — P — O — I — S

 

Benzi-me em assombro, como quase todos os presentes. Zé Tição olhou debaixo da mesa. Augustinha enfiou os panos da saia entre as pernas, as crianças arregalaram os olhos e buscaram suas mães.

 

Que coisa tenebrosa, um morto naquela situação!

— Que desejais, senhor alferes? Perguntou Oduval.

 

M — I — N — H — A M — E — D — A — L — H — A.

– Quereis uma medalha, sr. Tiradentes? Perguntou Sinhaninha

D-E-V-O-L-T-A!

 

Tiradentes era homem de poucas palavras. Talvez a forca ensine concisão e hei de revelar, senhora editora, que ninguém ali soube responder ao defunto. Aparecer no interior do Goyaz mais de cem anos após a sua morte para pedir uma medalha mostrava-se mais que improvável. 

 

O silêncio e o constrangimento da sala duraram pouco. De repente Nhô Quim, de quem pouco se vê a sombra e quase não se conhece a cor da voz, deu um salto agarrado ao seu próprio pescoço em rodopio.

 

-Incorporou! Disse Oduval arregalando os olhos.

 

O homem respondeu com voz alheia:

 

— Joaquim José da Silva Xavier, boa noite senhores e senhoras!

 

— Vim buscar minha medalha — declarou.

 

Aqui se faz necessária uma pausa, senhora! Não reputeis como mentirosa ou fantasiosa esta narrativa, ainda estamos todos acá estupefatos com o sucedido.

 

Tudo isso por causa das benditas sabatinas republicanas, vereis!

 

Sim, as sabatinas para a bendita presidência! Todos estamos assistindo, madame! Os do seu tempo e os do meu… quiçá no futuro alguns também estejam vendo e analisando a estupidez que ali demonstram os pretendentes a esta República mal criada. Pois saibais vós que também os mortos estão de olho no que dizem os candidatos. 

 

Atente no que disse nosso mais famoso alferes do Brasil:

– Assisti à sabatina do candidato Zero Um e descobri que uma medalha com meu nome foi concedida a um homem que se encontrava preso e acusado de homicídio. 

 

A cabeça de Nhô Quim tombou para a esquerda. O alferes aprumou-a com certa impaciência.

— O que discuto é a liberalidade com meu nome. Quando eu estava preso e ainda se debatia minha culpa, não me deram medalha alguma.

 

— Deram-me uma corda, foi o que fizeram! 

 

– Quero a medalha. Batizaram-na com meu nome. Ninguém mandou. Ela é minha por direito!

 

O constrangimento abateu-se sobre a sala. O que dizer ao fantasma? Augustinha benzeu-se. Zé Tição baixou os olhos. Oduval, que até então anotava tudo, pousou o lápis.

 

— Uma medalha pode ser devolvida, concluiu Tiradentes. O pescoço, como vedes, nem sempre.

 

Foi nesse estado que o mártir se sentou entre nós, inspirando respeito, embora fosse indescritível olhar para nhô Quim, o auge da modéstia e invisibilidade, se transformar em história viva bem debaixo dos nossos narizes.

 

— A República usa meu nome em praça, feriado, dentifrício, estabelecimento comercial e condecoração, lamentou-se. 

— Mas ninguém me presta contas de nada.

— É da natureza das homenagens — ponderou Oduval. — Depois de morto, o homenageado perde o controle sobre a própria reputação.

— Perdi a cabeça. Não perdi o critério.

 

De repente um estralo mudou a temperatura da sala, que, embora apinhada de gente, transformara-se em puro inverno, o que jamais se viu em véspera de setembro neste cerrado.

 

A tábua do frenesi fantasmagórico jogou sua vareta para longe.

 

Zé Tição, que disse ter vindo apenas devolver uma gamela e acabara incluído na sessão porque Oduval sustentou serem necessários mais dedos, empertigou-se com tamanha altivez que logo se via que ele também fora vítima de furto corporal por algum defunto.

 

– Senhores e madames, boa noite!

-É tudo culpa minha. Peço-vos e também ao povo brasileiro de ontem, de hoje e de sempre, as mais condoídas desculpas. Antes houvera eu morrido no ventre santo de minha mãezinha do que carregar tamanho remorso pelo além afora.

 

Até então ninguém estava entendendo coisa alguma, mas era de muita graça ver o Zé descalço, as palavras evidenciando a falta dos dentes na boca e toda aquela compostura marcial.  Daí, num arroubo, empinou o peito, recolheu a barriga, uniu os calcanhares nus e procurou bater continência. Desequilibrou-se na primeira tentativa, pisou na própria barra da calça na segunda e, na terceira, conseguiu manter-se aprumado, embora com o dedo indicador metido na orelha.

 

— Marechal Manuel Deodoro da Fonseca! Apresentou-se, com solenidade.

 

A ausência dos dentes transformou “Fonseca” em palavra assobiada, que chegou a estremecer a chama de um dos candeeiros e despertou risos entre as crianças. Sinhaninha repreendeu-as com os olhos.

 

— Respeitem a autoridade — ordenou Oduval e todos atenderam a ordem daquele que se mostrava secretário da espiritualidade.

— Venho tratar de assunto gravíssimo.

— Outra medalha? arriscou Nhô Quim, ainda Tiradentes.

— Pior, respondeu o marechal. 

— Venho buscar a República.

 

A sala aquietou-se.

— Para quê? perguntei.

 

O Zé respirou profundamente. Deodoro tornou a compor-lhe os ombros, alisou a camisa de algodão como se vestisse farda de gala e declarou:

— Para devolvê-la ao imperador.

 

Madame, conheço arrependimentos tardios. Já vi homem pedir de volta casamento, negócio, palavra empenhada e bezerro vendido.

 

Nunca, porém, presenciara alguém pretender devolver uma República depois de sete anos de uso.

 

Empertigado em sua farda de marechal, o proclamador, ou golpista, conforme a simpatia do leitor, continuou:

— Assisti à sabatina do candidato Zero Um.

— Ouvi a questão da medalha, prosseguiu o marechal, olhando para o espírito na vida de Nhô Quim.

— Ouvi falar das relações, dos dinheiros, das explicações que explicavam sempre outra coisa e das verdades que mudavam conforme a pergunta. Vi um candidato à Presidência desta República justificar a sujeição aos Estados Unidos como se dependência fosse aliança e vassalagem, diplomacia.

— Derrubei uma Monarquia, meus senhores. Não entreguei o Brasil para ser usado como quintal pelos norte-americanos.

 

O Zé foi-se elevando com a grandeza do discurso do morto dentro dele, batendo o pé descalço no chão e aprumou continência. Em resposta, as crianças, como se previamente ensaiadas, formaram fila e obedeceram ao comando do militar. Até os cachorros, Piloto e Capitão, sentaram-se imediatamente, à espera de ordens. 

 

Pareciam todos submetidos à disciplina do morto. Cruz-credo!

— Confesso-vos, disse Deodoro, que aceitaria quase qualquer dos outros.

— Qualquer um? Assustei-me com a declaração de voto do Marechal.

— Aceitaria aquele que pisa na vaidade todas as manhãs, o menino da bomba, o mineiro matador da língua portuguesa. Aceitaria até o homem que pede à República uma quarta oportunidade, pois ao menos não disfarça a reincidência em novidade.

 

Respirou profundamente.

— Mas não posso aceitar o Zero Um.

 

Esta parte, madame, especialmente me interessou, até porque devo a vosmecê também a análise sobre a sabatina do candidato filho.

— Por quê? Perguntei com legitima curiosidade, pois, evidentemente, desejava compreender o voto, ou o não voto, do pai da República.

— Porque não se apresentou à República como homem que lhe oferece serviços próprios. Apresentou-se como o filho escolhido para continuar a obra do pai. Invocou-lhe o nome, defendeu-lhe o governo, justificou-lhe os atos e falou como se a candidatura lhe houvesse chegado por sucessão doméstica. O mesmo fez em defesa do seu irmão, que se encontra na América trabalhando contra a Pátria brasileira.

 

O marechal nem tomava fôlego, fazendo o Zé engasgar-se com o grupo de palavras reunidas de uma só vez na sua boca, ao mesmo tempo em que cuspia saliva para todos os lados, tamanha a rapidez da fala do morto.

 

— Uma dinastia sem coroa, sem brasão e, sobretudo, sem a franqueza de confessar-se como tal. Não derrubei um imperador para que, anos depois, a Presidência fosse tratada como bem de família. Uma ofensa à Monarquia.

 

Calou-se.

Tomou fôlego, o Zé.

— Por isso vim buscar a República. Eu a retirei das mãos de quem talvez nunca devesse ter saído. Cabe-me, ainda que tarde, reparar a embrulhada.

– Vais devolvê-la a quem, Marechal? Perguntou Oduval.

— Ora, a Dom Pedro, a quem mais? O Mais merecedor de todos nós. O melhor brasileiro que já nasceu nestas terras.

— Mas Nhô Imperador morreu, uai! Mataram ele de desgosto, e vosmecê é o culpado, observou Augustinha demonstrando seu amor devocional por Dom Pedro II, distribuindo a culpa ao Marechal e também ao Zé, coitado.

— Senhora, nesta sala, isso deixou de ser impedimento.

 

Penso eu que poucos ali tinham a real ideia do que estávamos a presenciar. Afora a situação dantesca, as declarações de Deodoro haviam sido severas consigo e com a história brasileira, que abraçara um projeto de República mal traçado e agora o via descortinar-se diante de vivos e mortos! A que ponto chegamos, madame! A que ponto!

 

Até que para delírio de qualquer sanidade, senhora, a chama dos candeeiros inclinou-se mais uma vez. A tábua estalou no centro da mesa e Seu Ramiro, encurvado por uma vida inteira de enxada, levantou-se com uma solenidade inteiramente diversa da pressa humilde com que habitualmente cumpria sua lida. Alisou a camisa, aprumou os ombros e passou a mão pelo queixo, como se procurasse uma barba inexistente em gestos de larga nobreza.

 

Oduval tornou a arregalar os olhos:

— Incorporou!

 

O velho Ramiro percorreu a sala com olhar sereno. Depois respondeu numa voz grave, fatigada e muito bem-educada:

— Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga.

 

Fez-se silêncio.

— É nome de uma pessoa só? — cochichou D. Umbelina, aproveitando-se do silêncio que se fez.

 

Sinhaninha levantou-se imediatamente, seguida por Oduval e por mim, que a este momento tinha o coração disparado, sem acreditar no que estava a ver:

— Majestade!

 

Dom Pedro inclinou a cabeça e começou a percorrer a sala. Cumprimentou cada senhora individualmente, sem distinção entre as trabalhadoras da cozinha ou as vizinhas que haviam comparecido ainda com os filhos pela mão. A cada uma dirigiu uma palavra cortês, perguntou pela saúde e inclinou-se com a gravidade de quem ainda recebia em São Cristóvão.

 

Terminados os cumprimentos, colocou-se no centro da sala, estendeu a mão direita e esperou.

Ninguém compreendeu.

Sua Majestade estendeu-a um pouco mais.

Sinhaninha, que frequentou a Corte, foi a primeira a perceber:

— O beija-mão!

 

Formou-se como que automaticamente, pequena fila. Uma a uma, as senhoras aproximaram-se e beijaram a mão encarquilhada e gasta do seu Ramiro, que jamais recebera semelhante homenagem em vida e, a julgar pelo brilho que escapava de seus próprios olhos, aproveitava o momento com êxtase sobrenatural.

 

Quando chegou a vez do Zé, então Deodoro, aquele não só dobrou o corpo como fez especial reverência ao Imperador e antes mesmo de alcançar-lhe a mão, desabou num choro contínuo, guardado havia anos.

 

– Magnânimo! Perdoa-me! Traí meu bom e fiel amigo! Traí a minha Pátria! Traí a mim mesmo! Pior que o traidor das 30 moedas, muito pior. 

 

Dom Pedro contemplou-o com brandura.

– Sr. Proclamador! O que está feito está feito! Troia é queimada. Termópilas vencida! Jesus já entrou em Jerusalém. Nada disso tem volta.

 

O marechal afastou-se e pensei que o Zé fosse vomitar choro, tamanho o jorro de lágrimas que vinha já nem sei de onde. 

 

Sem saber o que fazer, ofereci café a Sua Majestade. Seu Ramiro recebeu a xícara, derramou a bebida no pires e bebeu por ele em pequenos goles, com naturalidade.

-Uai, Nhô Imperador toma café no pires? Estranhou Augustinha.

 

Dom Pedro terminou o café, devolveu-me o pires e perguntou se ali eu tinha livros de astronomia e física, matérias às quais vinha dedicando os lazeres da eternidade.

 

Respondi-lhe, envergonhada, que minha biblioteca guardava alguns volumes de poesia francesa, pouca literatura inglesa e, sobretudo, boas obras lusitanas, mas nada que pudesse satisfazer tão elevadas investigações científicas.

 

Sua Majestade não demonstrou desapontamento. Agradeceu-me com uma inclinação de cabeça e voltou-se para aquela assembleia híbrida, composta de criaturas naturais e autoridades sobrenaturais.

 

Assumiu a presidência daquele conclave sem que ninguém o elegesse, o que, dadas as circunstâncias, pareceu perfeitamente legítimo.

— Estais aqui reunidos para discutir as patéticas e reprováveis sabatinas dos candidatos à Presidência do Brasil, principiou.

 

Na qualidade de monarca mais republicano do mundo, não direi a quem entregarei meu voto.

 

Nesse ponto, senhora editora, questionei-me se um imperador deposto, exilado e morto conservaria direitos eleitorais; ou se Sua Majestade votaria como morto exilado ou como exilado morto. Preferi deixar quieta a questão. Não era ocasião de suscitar incidente constitucional diante de tão solene reunião.

 

— Contudo, prosseguiu o Imperador, devo ponderar, meus súditos brasileiros…

— Alguns pareceram-me lamentavelmente desprovidos de projetos próprios para o governo da Nação. Quando perguntados pelo futuro, um recorria ao pai; outro a modelos de segurança ditatoriais, outros à segurança americana, defenestrando a China. Mas o que tem a milenar China que tanto incomoda aos ditos liberais?

 

 Quando perguntados sobre o passado, um protegia a família; outro pisava na vaidade. Quando se lhes apresentava um fato, ofereciam uma versão; e, se o fato resistia, ofereciam outra.

 

—Um permitiu que o nome de nosso alferes fosse arrastado para uma controvérsia da qual jamais deveria ter participado. Não porque um acusado deva ser tido antecipadamente por culpado. Vós mesmo, senhor Xavier, conheceis melhor que ninguém semelhante injustiça, mas porque a maior condecoração de uma assembleia não deve ser empregada como declaração política de inocência enquanto a Justiça ainda examina o caso.

— Apoiado! exclamou Tiradentes, segurando a cabeça para que o entusiasmo não lha derrubasse novamente.

 

Dom Pedro aguardou que o alferes se recompusesse.

 

— Entretanto, não foi isso o que mais me inquietou. O candidato pode não possuir plano, pode equivocar-se, pode esquecer números ou confundir acontecimentos. O que não pode é estabelecer com a verdade relação meramente ocasional.

 

Seu Ramiro aprumou-se ainda mais, assumindo a severidade que somente um imperador dentro de um lavrador curvado pela enxada poderia ostentar.

— Evito qualificações indignas desta reunião. Todavia, depois de ouvir os candidatos negarem o que disseram, afirmarem o que não aconteceu e apresentarem como público aquilo que ninguém conseguiu encontrar, não vejo como fugir à conclusão: não se deve confiar em candidatos que fizeram da mentira um hábito e da correção dos fatos uma afronta pessoal.

 

Fitou Deodoro e concluiu:

— Um governante sem projeto pode ser aconselhado. Um ignorante pode aprender. Um vaidoso pode, com grande esforço, pisar na vaidade. Mas um homem que mente sem cessar termina por governar um país que só existe na própria versão.

 

A sala permaneceu em silêncio. Nem as crianças ousaram cochichar. Do lado de fora, Piloto e Capitão mantinham-se sentados, atentos à porta, como se também aguardassem o veredicto do monarca.

 

Deodoro foi o primeiro a falar:

— Eis a razão, Majestade, por que desejo devolver-vos a República.

 

Dom Pedro fitou-o demoradamente através dos olhos cansados de Seu Ramiro.

— Não podeis devolver aquilo que nunca vos pertenceu.

 

O marechal pareceu diminuir de tamanho, ante a verdade absoluta.

— Fui eu quem a proclamou.

— Proclamastes o regime, senhor marechal. Não adquiristes a Nação.

— O Brasil não é propriedade de imperador, presidente, marechal ou família. Se desejais reparar a embrulhada, não devolvais a República a mim. Entregai-a ao povo de quem a tomastes sem consulta.

— Quanto aos candidatos, prosseguiu Sua Majestade, deixemos que os brasileiros decidam se desejam eleger um homem ou uma fantasia. Apenas recomendo que, antes do voto, procurem separar o candidato do pai, os projetos das lembranças, os fatos das versões e o dinheiro público daquele que todos asseguram ser particular.

 

O imperador voltou-se então para todos e de forma mais que solene, disse:

-Brasileiros! Não vos peço que acrediteis em reis, espíritos ou tábuas americanas. Peço apenas que não entregueis o Brasil a quem pretende governá-lo mediante parentesco, ressentimento e sucessivas correções da verdade. Uma República pode sobreviver a um homem medíocre. Dificilmente sobrevive quando seus cidadãos se acostumam à mentira.

 

Mal Sua Majestade concluiu, ouviu-se uma palma.

Depois outra.

E mais outra.

 

Não vinham da sala. Nenhuma das mãos que eu podia ver havia se movido. Ainda assim, o aplauso cresceu, primeiro junto às janelas, depois no alpendre, no terreiro e para além das cercas, como se uma multidão invisível ocupasse toda a extensão da fazenda.

Eram centenas de palmas.

Milhares.

O som atravessava as paredes, descia pelos telhados, sacudia as folhas das árvores e fazia estremecer a chama dos candeeiros. Não era estrondo de tempestade nem rumor de boiada. Era uma ovação, senhora editora. A maior que estes ermos já ouviram, oferecida por uma assistência que não conseguíamos enxergar.

— Quem está lá fora? — perguntou Sinhaninha.

Oduval aproximou-se da janela. Não viu pessoa alguma, apenas o terreiro vazio, iluminado por uma lua pálida. Todavia, as palmas prosseguiam, cada vez mais numerosas, como se os mortos de todas as épocas se houvessem reunido para ouvir o velho imperador.

 

Madame, aqueles mortos não se apresentaram à mesa. Eram muitos. Milhares e milhares. Não caberiam em minha sala, na casa, no terreiro, nem talvez em toda a Província. Permaneceram onde estavam, numa distância que não sei medir.

Nada disseram. Talvez porque lhes houvesse faltado, nos últimos momentos, o ar necessário às palavras.

 

 Os brasileiros aplaudiram.

Aplaudiram longamente.

 

Dom Pedro curvou a cabeça diante daquela assistência invisível. Pela primeira vez desde que chegara, pareceu-lhe faltar resposta. Levou a mão ao peito e seus olhos se encheram de uma tristeza tão funda que não soube distinguir se chorava o imperador, o lavrador ou o próprio Brasil.

As palmas diminuíram aos poucos, afastando-se pela noite como chuva que segue para outras terras. A última ainda ecoou muito depois das demais.

Então, fez-se silêncio, mas já não era o mesmo silêncio de antes.

Ao romper da manhã, Sinhaninha guardou a tábua na caixa. Oduval recolheu suas anotações. Os vizinhos retornaram às casas em silêncio. Seu Ramiro levou consigo a lembrança de haver sido imperador por uma noite; o Zé saiu convencido de que comandara tropas e Nhô Quim, já sabe que ainda hoje está com dores no pescoço. 

 

Quanto a mim, senhora editora, retomarei a análise das sabatinas conforme vos prometi. Preciso, porém, de alguns dias.

 

 Depois de receber em minha sala um mártir sem cabeça, um marechal arrependido e um imperador morto, pareceu-me prudente adiar o encontro com os vivos.

 

Cumprimento-vos com admiração, reiterando que se quiser queimar essas linhas, faça como bem entender, elas são vossas e absolutamente fiéis ao que sucedeu em minha sala, nesse Goyaz de meu Deus, que como vos adiantei, não é terra como as outras.

 

Assino ainda sem saber de que lado da vida estou,

Sinhá

 

Este post foi escrito por: Sinhá

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