segunda-feira, 17 de junho de 2024

São Tiago me socorreu a caminho de Compostela

 

Marcio Fernandes – Eu fiz três vezes o Caminho de Santiago. No primeiro, primavera europeia de 2017, andei 135 quilômetros pelo Caminho Português Central, desde Ponte de Lima (PT). Na travessia das florestas íngremes do Minho (PT) e dos campos da Galícia (ES), a finalidade era basicamente fazer uma trilha de longo curso que passa pela Via Romana XIX, construída no Século I DC. Não havia motivação religiosa. Acabou por acontecer muitas coisas qualificadas, como o conhecimento, ao vivo e a pé, da cultura celta na Península Ibérica.

 

É muito bom andar por extensas distâncias só para ficar sozinho. À noite partilhar com gente fina mesa farta e boa, além do excepcional vinho da casa em restaurante dos peregrinos. Tudo, inclusive o pudim, por 8 euros. Fiz alguns amigos para o resto da vida. Irina da Rússia, que chegou a ser impedida de voltar a Santiago por conta da guerra. Paulo, mochileiro português, conhecedor da terra do Dão (PT) e de coração grande. Anna, napolitana muito brava e carinhosa. Jakob, dinamarquês bossa-nova que morou no Rio de Janeiro e toca violão. O novo irmão Paulo de Bauru (SP) e a mineira de BH Débora de Compostela, que não caminhou comigo.

 

 

Confiança às alturas, quatro meses depois fiz 220 quilômetros do Caminho Português da Costa, desde o Porto (PT), em agosto seco e muito quente. Nas costas a mochila certa para a caminhada. Dei a ela o nome de La Madrasta. A mochila é ao mesmo benção e penitência para quem caminha em média de 20 quilômetros por dia. Indispensável, nos últimos passos de cada etapa ela te dá a sensação de ser um servo medieval carregando pedra para construir igreja de bispo desalmado. Fazer o Caminho a pé significa muita exaustão física. Você é governado pelos pés. Essa conversa de catarse é muito pessoal, mas é verdade que o Caminho de Santiago altera algumas coisas.

 

Depois que voltei, eu e meu filho Daniel decidimos fazer o Caminho de Santiago Francês a partir de Saint-Jean-Pied-de-Port, França. No dia em que eu comprei a passagem para Lisboa (PT) tive lesão séria no joelho esquerdo treinando. O médico me disse que a recuperação iria ser demorada e me desenganou da prática de caminhada de longa distância. Cheguei às vésperas da viagem fora do Caminho de Santiago. Combinei de encontrar Daniel em Madrid. De lá a gente iria a Amsterdam.

 

 

Saí de casa com edema grande no joelho. Viajei de TAP sacolejando no poleiro da classe econômica. Eu já estava meio desacorçoado. Na conexão em Lisboa veio sentimento de ter entrado em uma roubada expressiva. Depois do banho de longa duração, dormi sono profundo, fiz uns alongamentos e saquei que o edema havia recuado. Andei pelo bairro Madrid de las Letras com joelho firme, sem dor. Caraca, não acreditei!

 

 

Daniel chegou horas depois. Fomos dar uma forrada com o melhor bocadillo (sanduíche) de jamón ibérico da capital espanhola antes de régio jantar. A gente estava tomando um vinho de Toro (ES) para acompanhar assado tradicional de Segóvia (ES). Falei para ele que nós iríamos fazer o Caminho. Meu joelho tinha sarado. Ele desaconselhou a iniciativa como médico e atleta. Insisti e Daniel topou começar em Burgos (ES), 500 quilômetros de Compostela. A única condição era eu não pedir socorro médico de hipocondríaco. Era fim de abril e a gente contava com sol de primavera. O que o Caminho de Santiago trouxe foram ventos gelados, chuva e neve.

 

 

Nosso equipamento era bom, mas não exatamente adequado para o inverno fora de época. Os últimos dez dias foram de garoa fina e constante. Ela encharcava o terreno, fazia a progressão ser lenta e te chamava para desistir. Linda de se ver nas montanhas, a neve em uma caminhada é obstáculo difícil de ser superado e perigoso, como foi o caso da nevasca grande que pegamos na descida de O Cebreiro, Galícia, cota mais alta do Caminho Francês.

 

 

Formamos grupo interessante no Caminho, coisa que você faz depois de muita quilometragem. Dois irmãos montanhistas galeses, Inglaterra, experientes em caminhada de longo curso. Três dinamarquesas e o Jakob, que não se conheciam, além de pessoal da Alemanha, Bélgica e Finlândia. Chegamos a Santiago de Compostela completamente moídos. A chuva cancelou a natural confraternização na Praça do Obradoiro, em frente à Catedral de Santiago. É aquele momento definitivo da chegada, no qual você põe a mochila no chão, tira as botas, toma água fresca e aprecia a conquista. Depois da comida, a gente queria banho, cama e um pouco de sol.

 

 

No outro dia, domingo de noite escura, estava tomando um vinho na varanda de hostel ordinário quando aparecem na rua estreita Daniel e a galera na maior farra. Desci e fomos ao único bar aberto na região. Contamos muitas histórias dos nossos caminhos. Já na rua nos abraçamos sem segurar o choro guardado por tantos dias de chuva e do adeus. Acho que São Tiago passou a mão em meu joelho e me socorreu no Caminho. Ando com muita vontade de voltar a pé a Santigo de Compostela para agradecê-lo e ter agora uma conversa de idoso.

 

 

Marcio Fernandes é jornalista
Fotos: Marcio Fernandes

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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7 comentários em "São Tiago me socorreu a caminho de Compostela"

  • Avatar Heliane Fernandes Moreira disse:

    Excelente matéria, meu sonho fazer um trecho 🙏

  • Avatar Noemy Faria disse:

    Claro que eu invejo este lado de aventureiro/ andarilho seu. Mas como vc sabe adoro aventuras com largo conforto. Te amo demais e fiquei cansada só de te acompanhar.
    Toma juízo menino…Chega de fazer essas estripulias. Belo texto! Vc faz bem pra minha alma. ❤️😘

    • Avatar MARCIO FERNANDES disse:

      Querida Noemy, vamos fazer o Caminho de Santiago das Vinícolas com motorista na porta do hotel e chá de boldo de cortesia. Te amo muito!

  • Avatar Joveny Sebastião Cândido de Oliveira disse:

    Márcio , li o seu texto e quero cumprimentá-lo. Sei bem o que vocês viveram no percurso. Também eu, pelo caminho francês, fiz a Peregrinação a Compostela por três vezes: em 2003, aos 67 anos, em 2010, aos 74, em em 2017, aos 80 anos. Tenho na memória e no coração todas as lembranças, e nos armários as fotos e as três Compostelanas e os passaportes carimbados do peregrino. Só o peregrino jacobeu sabe o significado disto . Já nos encontramos no passado na Academia. Sou o Joveny Cândido de Oliveira, seu colega advogado. ULTREYA et SUSEYA.

  • Avatar MARCIO FERNANDES disse:

    Muito obrigado, Dr. Joveny,!
    O senhor foi meu grande professor da Faculdade de Direito da UFG. Espero ter a mesma energia do senhor para voltar a Compostela. Realmente só quem fez o Caminho sabe do se trata. Buen Camino!

  • Avatar Joveny disse:

    Creio que o Caminho é a sua própria vida, e a chegada ao Obradoiro a vitória final. Só alguns conseguem chegar. Muitos ficam pelo Caminho imaginando razões pelo fracasso…

  • Avatar Maria Cristina Landeiro Tavares disse:

    Adorei ler o seu relato, parabéns pela conquista.

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