Segredos das portas que conversaram comigo na viagem e certo Ministério dos Anjos da Guarda

Marcio Fernandes – Em 1992, eu, a jornalista Britz Lopes e o fotógrafo Carlos Orsi fizemos uma entrevista com o antropólogo Darcy Ribeiro. O então senador pelo Rio de Janeiro afirmou que no Brasil não havia um porco abandonado, mas milhões de crianças comendo lixo nas ruas. Nada mudou desde então.
Na Europa, não é admissível criança em situação de abandono material e intelectual. No horário da escola, estão em sala de aula e não vendendo balinha no sinaleiro ou se prostituindo em praia do nordeste brasileiro.

Também não há criança que sonha em ter um fuzil e angariar posto de comando em organização criminosa para ser um dia o cara do baile funk nas favelas.
Tenho pavor de iniciativas clientelistas do governo brasileiro que fala em “resgatar a cidadania” e da tal medicina “humanizada”. Fico ainda mais perplexo com reportagem de jornal a tratar da comoção comunitária provocada pela morte de um cachorro de rua.

No século 21, a emoção adquiriu cabeça, tronco e membros da falsidade bondosa e comovida. É como se ela fosse uma rosa de plástico vendida em bazar chinês de quinquilharias. Por que ninguém se emociona com o esgoto a céu aberto na porta de casa?
Por isso, resolvi ouvir, em minha viagem, o sentimento das portas. Não há ninguém a socorrê-las da eterna prisão determinada pelos cadeados enferrujados. Ninguém vai aparecer para abri-las como nos velhos tempos de porta aberta para o interior da casa.

Ninguém vai fechá-las na hora da despedida daqueles que foram caros amigos e não existem mais. Ninguém vai mesmo chutá-las, pois são onças mortas. Finalmente, ninguém vai dar a mínima para encontrar as chaves de uma porta sem utilidade.
No fundo, elas são a última parte do casarão em ruínas. Aos poucos, estão sendo comidas pela umidade. Antes plenas de salubridade e prontas para tantos baratos afins, hoje são portas onde moram os cupins.
E como fica o habilidoso carpinteiro que levou dias e dias a esculpir a porta com serrote e formão? Será que se sente desprestigiado o ferreiro que forjou o aço da aldraba por ele desenhada em forma de coração?

Uma vez em Buenos Aires (Argentina), conversei com portas cheias de saudosismo. Elas me disseram que até hoje choram ao ouvir La Comparsita, o tango mais famoso do mundo, composto por um uruguaio.
Em Lisboa (Portugal), elas me falaram do prazer que era ouvir Amália Rodrigues a cantar o último fado, hoje função a cargo da deliciosa voz da Carminho.
Na Hungria, as portas do Museu Casa do Terror me relataram o pavor que foi viver sob o fascismo na segunda guerra e o comunismo stalinista que se seguiu.

Em Tossa de Mar (Catalunha) também conversei com fechaduras que, de tão deprimidas por não mais serem úteis na velhice, deixaram a chave do lado de fora para protagonizar a sombra de tempos do inesquecível abrir e fechar o ferrolho.
Em Larnaca (Chipre) há um monte de portas abandonadas. Eu percorri as ruas da cidade de coração dilacerado por elas terem perdido a função. Portas fechadas por correntes e cadeados pelo tempo que se foi.

Portas que nunca mais serão abertas pelo dono da casa. Nem pela mulher que se divorciou. Esse tipo de porta sempre vai me conduzir para a música preferida dos Beatles sobre o drama da Eleanor Rigby:
“All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?”
Nas andanças por Tel Aviv (Israel), descobri uma porta super pretensiosa, que se achava a diva da ópera por ter a cor azul cobalto das portas do bairro londrino Notting Hill.

Outra porta, em Limassol (Chipre), me disse que apesar da solidão incomensurável da velhice teve a sorte de estar ao lado de um barbeiro dos bons tempos, com cadeira de ferro e pedra para afiar a navalha antes de fazer a barba de alguém.
Encontrei em Vitoria-Gasteiz (País Basco) uma porta medieval com ferrolhos e toda cheia de portentosas dobradiças que o tempo não é capaz de exterminar.
Uma outra, mais nova, me confessou que, apesar do abandono dos filhos, estava feliz da vida por se parecer com as linhas retas de uma tela do Alfredo Volpi.

Eu estou muito contrariado com as portas encardidas do meu país sem futuro. Elas são o sentimento pardo que desde criança guardo sobre o Brasil. Um país que não perde a oportunidade de fechar as portas para a civilização.
Quando o amor começa, é só porta de entrada e parece que elas permanecerão assim como se fossem eternos os beijos de manhã. Quando termina, é porta na cara à espera de uma decisão do juiz.
Existem portas com alma, excitantes, no momento do amor à primeira vista. Outras frias de amor que acaba. No fundo, você ainda acha que elas deveriam deixar uma fresta para que nunca morresse a possibilidade da volta, da reconciliação.

Há a porta dos filhos, que não deveriam entrar na conta dos bens a serem partilhados e nunca poderiam ser objetos da alienação parental.
Depois da tua morte, basta que o caixão seja fechado para se abrir a porta macabra do inventário e da briga entre irmãos.
A porta te deixa abrigado da chuva e faz o frio ficar lá fora. Quando o calor é insuportável, ela deve ser fechada para dar sentido ao ar-condicionado.
A pior delas é a porta da dúvida. Devo ou não devo bater nessa porta? Será que ela ainda me ama depois de tantas portas erradas?

Será que meu coração ainda tem portas abertas para acreditar que existe alma por conta da dolorosa porta que se fechou para sempre com o suicídio do meu irmão?
Meu coração solitário fica ainda mais triste quando encontra portas abandonadas. Foi assim nas Astúrias, em Bucareste, em Tel Aviv e em Larnaca. Faz parte da viagem e já foi pior.
Quando eu era ateu, as portas não me diziam nada. Mesmo disponíveis, eu não batia a aldraba. Hoje em dia, Hashem (Deus) me protege desde as cinco da manhã, como me ensinou meu amigo sefaradi Ilson Saul. Ele acaba de ser nomeado para o Ministério dos Anjos da Guarda do Principado Imaginário.

Eu tenho muito orgulho de ser filho de pai e mãe da portugalidade que tentou fazer um grande país nas terras distantes do mar infinito que se converteu em bananais miseráveis.
Infelizmente, o Brasil é um país cujas portas estão sempre fechadas à prosperidade. O presidente roubou as chaves do cadeado e até agora, no lado oposto, ninguém sabe o telefone do chaveiro e não há uma porta ao lado para se pedir socorro.
Marcio Fernandes, jornalista, é autor do texto e das fotografias