segunda-feira, 17 de junho de 2024

Sem exageros nem idiotices

 

Infelizmente, a linguagem escrita do pessoal de hoje é: pq, vc, naum, vcs, tá, abs, bj. E por aí vai. Há 15 anos, quando voltei para os bancos escolares, já era assim e pouquíssimos liam alguma obra literária. Um terror atômico.

 

Concordo em parte com a professora Amanda Pessoa (em entrevista concedida a esta revista eletrônica) quanto ao uso de palavras estrangeiras, algumas já incluídas em nosso Houaiss, como futebol, gol, chip, performance, sanduíche, jeans, tênis,  botox, laser e tantas outras.

 

Só não pode ser o exagero de um projeto de um idiota como Aldo Rabelo, com seu projeto imbecil de proibir qualquer inclusão de palavra estrangeira em nosso idioma. Caiu na casca de banana que o genial Millôr Fernandes (foto que ilustra a reportagem) lhe pôs em artigo crítico.

 

Afirmou que o que dizia Aldo era uma idioletice… O não tão ilustre deputado se esqueceu de ir ao dicionário e processou Millôr.  Dançou. Aldo se vangloriava de ter sido analfabeto até os 16 anos, no que Millôr retrucou: “Continua analfabeto até hoje…” (Luiz Gravatá)

 

Foto: esquinamusical.com.br

 

Voltando na história

 

A Comissão de Educação, Cultura e Desporto aprovou, no dia 9 de agosto do ano 2000, o PL 1676/99, do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que previa punições para quem abusasse do uso de expressões estrangeiras. O autor baseou-se no texto da Constituição que considerou a língua portuguesa patrimônio cultural brasileiro, garantindo punição aos danos e às ameaças a ele, na forma da lei.

 

O projeto de Rebelo pretendia defender a língua nacional de palavras e expressões estrangeiras usadas no comércio, meios de comunicação, publicidade e estabelecimentos de ensino. Pela matéria, os usuários ficariam obrigados a substituir a palavra estrangeira pelo termo equivalente em português dentro de 90 dias a partir da publicação da lei.

 

No caso de não existir a palavra correspondente, o projeto permitia que a Academia Brasileira de Letras (ABL) estudasse o “aportuguesamento” do termo estrangeiro. A proposta determinava, ainda, que as sanções aos infratores seriam especificadas na regulamentação da lei, elaborada pelo Ministério da Educação com a ajuda da ABL.

 

Para a relatora do projeto, deputada Iara Bernardi (PT-SP), o uso dos estrangeirismos no comércio confunde a população, que não tem obrigação de conhecer os termos empregados. A deputada disse ainda que a informática está bombardeando nosso idioma com expressões de língua inglesa. “A colonização cultural de um povo começa pela descaracterização da língua”, salientou Iara Bernardi. (Fonte: Agência Câmara de Notícias)

 

Quanta idioletice!

 

Legislador, não passes da corrupção. A língua é a mais complexa, a mais milagrosa, a mais estranha, a mais gigantesca e variada invenção humana. E nada é mais dinâmico e menos sujeito a tutelas autoritárias. Agora, mais uma vez, vê-se um cidadão, ‘eleito pelo povo’, propor uma lei proibindo o uso de palavras estrangeiras em nosso cotidiano, hebdomadário e até anuário.

 

Pera aí: estava em sua proposta de governo que ele tinha autoridade para interferir no que eu falo, escrevo ou pinto em minha tabuleta? Ele sabe, literalmente, do que está falando? Quanta idioletice! PS: Não adianta correr ao Aurélio.

 

1) Reproduzindo texto supostamente meu, o deputado bota, como meu, se referindo a ele: ‘Ele sabe do que está falando? Quanta idiotice!”. Ora, eu escrevi idioletice. Acredito, portanto, que não cometi o ‘crime’ de que o deputado e sua advogada Zilah Joly me acusam. O deputado nem leu corretamente o que escrevi e confundiu idioletice com idiotice, o que é uma comprovação da mesma.

 

2) O título Não Passes da Corrupção (e não estou me retratando) quer dizer exatamente o que diz. Ressoa a Não Passes dos Sapatos, recomendação que se faz a quem trata de um assunto de que não entende, extrapolando do que entende ou devia entender. Exemplo clássico: o sapateiro, de quem o pintor aceitou a crítica sobre os sapatos de seu quadro, começa a criticar o quadro todo.

 

3) Não coloquei o nome do autor, já que não era o caso, em se tratando de um absoluto leigo no assunto (e anônimo no geral) sobre o qual pretendia legislar, a língua nossa. Não dele, pelo visto. Ele não parece entender do que está falando. Será que o Vossa Excelência aceitaria pequena sabatina, tipo português lecionado no segundo ginasial?

 

4) Bem, o ‘comprometimento da honorabilidade’ do moço, pra ser tão grave, precisaria, pelo menos, do uso do seu nome. Sem o uso do nome a desonra fica restrita ao convívio de seus pares (e ímpares), que devem conhecer muito bem sua honra, e cultura, geral e específica. E saber que o jornalista que o desonra é, no mínimo, um leviano.

 

5) Mesmo acabada a imunidade geral, o parlamentar tem direito total (compreende-se que até, ocasionalmente, ofensivo ou resvalando por aí) ao uso de sua palavra. Não pode ser condenado por isso. E o jornalista, que vive só e apenasmente da palavra, não pode nem discordar da legislação semântica do parlamentar sem ficar sujeito a pagar R$ 30.200?

 

6) Não reconheço autoridade (mas isso é coisa minha) lingüística nem na ABL, nem na OAB. Há profissionais do ramo em ambas as entidades, mas à maioria eu não entregaria meu cachorro lingüístico pra passear na praia. Preferiria que o caso – em sua parte específica – fosse julgado por entidades mais especializadas.

 

7) Embora não seja necessário, devido a se atribuir alto conhecimento da língua que defende, explico aqui ao nobre deputado o que significa a palavra idioletice. É palavra criada por mim com sentido evidente. Mas apenas coloquei a desinência ice na palavra IDIOLETO. Ah, e o que é idioleto?

 

Vejamos:

Aurélio: Idioleto: S.m. E.Ling. 1. A fala de um único indivíduo.

 

Houaiss (definição mais barroca): Idioleto: Sistema lingüístico de um único indivíduo, que reflete suas características pessoais, os estímulos a que foi submetido, sua biografia etc. (Pertence ao campo da langue, e não da parole, porque trata de particularidades lingüísticas constantes, não fortuitas. Depreendido de dialeto).

 

Il Nuovo ZINGARELLI – Vocabolario della lingua italiana: Idiolétto: Linsieme degli usi di una lingua carateristtico di um dato individuo, in un determinato momento.

 

The Oxford Companion to the English Language: Idiolect: (1940. From greek, idios personal, and – lect as in dialect). In linguistics, the language special to an individual, sometimes described as a ‘personal dialect’.

 

The Cambridge Encyclopedia of Language. David Crystal: Idiolect: Probably no two people are identical in the way they use language or react to the usage of others. In recent years sociolinguists have begun to use lect as general term in this way. A Suplement to the Oxford English Dictionar: Idiolect-1948. B.Bloch in Languages XXIV.7. The totality of the possible utterances of one speaker at one time in using one language to interact with other speaker is an idiolect.

 

Diccionário de uso del espanol actual: Idiolecto: En lingüistico, modo característico que cada hablante tiene de emplear sua lingua. (Importante, deputado: o prefácio deste dicionário é de Gabriel García Márquez. Vale a pena ler.) 1948.

 

Archivum linguisticum: Idioletical diversty is an invitable result of the productivity inherent in every single individual linguistic habits.

 

8) PS. Ah, deputado José Aldo Rebelo e advogada Dra. Zilah Joly: na página 07, linha 6, antepenúltima palavra da linha, de vosso brilhante arrazoado, existe um à (a craseado), que mostra certo desconhecimento da língua normatizada. Eu não ligo não, defendo mesmo a tese de que a crase não existe em português do Brasil, mas tem gente no foro que repara.

 

PPS. É famoso; Monsieur Jourdain, o novo-rico de Molière, querendo comprar cultura prêt-à-porter, ficou besta quando o professor contratado lhe explicou o que era prosa: ‘Prosa é isso, Mestre? Quer dizer que eu falo prosa sem saber?’. Me processando agora e me obrigando a esta dissertação, o deputado Aldo Rebelo prestou enorme serviço a todos vocês e amáveis (e grosseiros também, por que não?) leitores. De hoje em diante poderão empinar o nariz diante de pessoas ignorantes e dizer com orgulho: ‘Eu só falo idioleto’. (Millôr Fernandes no portal conjur.com.br, janeiro de 20202)

 

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Este post foi escrito por: Luiz Gravatá

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2 comentários em "Sem exageros nem idiotices"

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