sábado, 18 de maio de 2024

Tudo ia bem até que apareceu um Julio Iglesias com cintura de toureiro

 

Marcio Fernandes – Em quatro dias de Marrocos, até agora o único prato que ficou na boa lembrança mesmo foi um fatuche, rica salada com um molho de ervas que não saberia descrever o sabor e que na verdade é libanesa.

 

Nada a reclamar, pois estou meio que no samba de uma nota só no setor de alimentação. No almoço, rola tajine de carneiro, já que cuscuz está entre as comidas que não como por conta do nome.

 

Hoje foi dia de despedida de Marrakesh. Vai ficar na saudade. Custaria muito pouco fazer um programa de saneamento por aqui, tendo em vista o patrimônio arquitetônico milenar valioso e, principalmente, a qualidade de vida da população.

 

 

Sem investimento em tratamento de água, esgoto e resíduos sólidos não se supera a pobreza. É por conta dessa infraestrutura deplorável que o Nordeste do Brasil tem indicadores sociais vergonhosos e elege político FDP que convence os eleitores de que a seca é desejo de Deus e há honra em ser um miserável dependente de 600 reais do governo.

 

Mudamos positivamente de riad, tipo de hotel, para um quali mais elevado e o modo só alegria se instalou no relacionamento do casal. Foi acertada a decisão de praticar o exaurimento do riad e não sapecar mais a pele no sol marroquino.

 

 

Ontem tivemos de cruzar um deserto sem camelo para comprar o vinho da noite, que por sinal é sensacional. O Marrocos é um país muçulmano e não rola bebida alcoólica na medina. Se quer encher a bica tem de rodar muito ou ficar em resort, o que acho super roubada.

 

O café da manhã do riad foi bacana. Não comia bolo desde Lisboa. Mergulhei o bicho na chávena de leite, passei mel no pão, mandei três cubos de açucar no copo de chá de hortelã, abusei da compota de goiabada sobre a omelete e pedi outro suco de laranja. Não houve alteração do primeiro lugar no ranking mundial de suco de laranja. O do banca da Rua Sheinkin, quase esquina com Rua Allenby, em Tel Aviv, continua na liderança, mas o Marrocos subiu de posição ao superar Portugal e Espanha, que agora se encontram respectivamente em terceiro e quarto lugares.

 

 

Antes de pegar o trem de Marrakesh para Casablanca rolou uma inalação de cristais de cânfora. Isso me lembrou a Vó Carlota. Ela era adepta da cânfora para limpar as vias respiratórias e acreditava nas multipropriedades da pomada Minancora. Outra coisa do Marrocos que me levou à infância foi o refrigerante Mirinda. Aqui tem pra todo lado. Pena que a maioria dos marroquinos não possui renda pra comprar uma Miranda para as crianças jogadas no subemprego das ruas de Marrakesh.

 

No tempo em que era criança, o caminhão de refrigerante parava na porta de casa e a gente trocava o engradado de madeira de 12 cascos de Mirinda e Grapete. O padeiro também entregava o pão na porta. Facilidades do Regime Militar que a democracia aboliu.

 

 

A sabedoria popular do pessimismo diz que a grama do vizinho é sempre melhor do que a tua. Rigorosamente isto não se aplica ao vagão 21 do trem Marrakesh-Casablanca. Nossa cabine de oito assentos tem sete pessoas. Na imediatamente anterior, a lotação é 329% da capacidade instalada. Os ocupantes estão com as bagagens na cabine exclusiva a passageiros e ainda seis deles comem aquelas porcarias do McDonald com sacos de batata frita. Há um concurso por lá de quem faz mais barulho com o canudo no copo de Coca-Cola. Nossa situação é bem melhor devido à minha intervenção de organizar a bagagem de todos os presentes. Apesar do calorão, só têm harmonia e felicidade no vagão 21.

 

Em dois terços da viagem de 2h38, o trem atravessou uma região de solo praticamente estéril para depois alcançar o Magreb marroquino em direção do litoral. O Magreb é uma franja de terras férteis que se estende do Mauritânia até a Tunísia, margeando o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo. Na região se encontra o Saara Ocidental, última colônia europeia na África e tem parte do território ocupado pelo Reino do Marrocos.

 

 

A Espanha democrática do pós-Franco se comprometeu, no processo de descolonização, a dar suporte à criação de um Estado na região, no entanto o país europeu deixou os saarianos falando sozinhos no deserto.

 

A gente chegou a Casablanca sem muita expectativa da cidade. O projeto era dar um tempo do trem e descolar um restaurante italiano. Assim a promessa se cumpriu e comemos regiamente ao som de Cesaria Évora em lugar sensacional com vinho sem censura religiosa. O dia poderia ter sido perfeito se lá atrás, no café da manhã, não tivesse aparecido no terraço do riad um camarada com cara de Julio Iglesias com cintura de toureiro. Não precisava…

 

Fotografias e texto jornalista Marcio Fernandes

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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