segunda-feira, 17 de junho de 2024

Uma mulher-coragem chamada Maria

Aos 16 anos, descobri que meus pais, Maria dos Santos e João Egídio da Silva, não eram legalmente casados. Minha mãe havia sido casada, ainda muito jovem, com um homem 20 anos mais velho e foi obrigada a deixar o relacionamento por ter sido vítima de abusos físicos, moral e psicológico durante quase dois anos. Seu primeiro marido era alcoólatra.

Mulheres desquitadas que voltavam para a casa dos pais na década de 40 eram rejeitadas, não podiam mais se casar, pois o desquite não colocava fim ao casamento. Cessava apenas as responsabilidades e obrigações decorrentes da união. Casamento era instituição protegida pelo Estado, pelas igrejas, tanto católica quanto evangélica, religião da minha mãe.

Assim que chegou de volta à casa dos pais, Jessé e Júlia, ela voltou a frequentar a Igreja Batista, como fazia toda a família desde que chegou à Nazário, a partir de Ipameri, onde minha mãe nasceu e seus pais fizeram parte da fundação da Primeira Igreja Batista do Estado de Goiás. Meus avós saíram de Ipameri porque entenderam que a vida no sertão de Goiás seria mais fácil com o início da Segunda Guerra. Naquele tempo faltava quase tudo e muita coisa era feita em casa, até os tecidos.

Talento nato – Ledo engano! Tudo foi mais complicado e ainda não puderam oferecer educação de melhor qualidade para os filhos. Mesmo com os atrasos de vida, ela já era alfabetizada e tinha noções de artes, costuras, músicas. As escolas em Ipameri proporcionavam essas atividades e a igreja reforçava. Os evangélicos faziam questão de que seus membros fossem alfabetizados e participassem de peças teatrais em eventos específicos, principalmente no Natal e na Páscoa. Minha mãe sempre se mostrou talentosa.

A prisão e sofrimento entre quatro paredes terminaram. Começava, então, o exílio social. Ela era considerada amante, apesar de sua conduta honesta. Foi excluída da Igreja Batista e não podia participar dos cultos. Começou a costurar para sustentar a família, que não tinha posses para manter uma casa com todos os filhos vivendo debaixo do mesmo teto. Pensou em mudar-se para São Paulo para tentar ser estilista – carreira que crescia no mundo pós-guerra.

Mas antes de seguir com seu plano, Maria resolveu visitar os tios maternos em Ipameri. Chegando lá, encontrou o casal numa situação triste. A tia havia feito uma cirurgia de apendicite e estava muito mal. Por causa disso, acabou ficando 45 dias na cidade e teve que gastar todas as suas economias – que iriam levá-la até São Paulo – com medicamentos e hospital para a tia.

Começo da virada – Daí ela escreve uma carta para o seu tio Enoque dos Santos falando das suas dificuldades. Ele mostrou a carta para o secretário da Fazenda à época, Juca Ludovico, que enxergou em minha mãe todas as qualidades para que ela ingressasse no serviço público. Foi bem-sucedida no curso e nas provas e pediu para ser lotada na Coletoria de Itapirapuã. Mas sem o apoio de Enoque, que reassumiu a função de missionário na Igreja Assembleia de Deus, acabou voltando para a casa dos pais.

A condição de desquitada ainda lhe pesava. Era vista como uma “andorinha para qualquer gavião”. Não poucas vezes ela foi assediada por homens sem escrúpulos e vítima de maledicências de todas as formas; tanto de mulheres como de homens. De volta para Nazário, quase dez anos depois do desquite, ela conheceu meu pai, João Egídio, que também era fiscal na cidade, e começaram a namorar.

Como tinham a intenção de viverem juntos, mas a Secretaria da Fazenda não permitia que o casal trabalhasse no mesmo órgão, meu pai pediu exoneração do cargo de fiscal e foi trabalhar como peão numa fazenda da região até conseguir outro tipo de trabalho. Minha mãe já estava grávida e o casal tinha de oficializar a união.

Casamento que não houve – Mexeram seus pauzinhos e conseguiram um padre de Inhumas para dar uma satisfação para a sociedade. Mas o padre não compareceu. O amigo que havia levado o casal para a cerimônia disse que ninguém precisava saber daquele fato. Assim voltaram para Nazário com a história do casamento que não houve. Quem se atrevesse a falar sobre o passado dos meus pais conosco era ameaçado com um artigo do Código Penal.

Desde a primeira infância, frequentávamos a Igreja Batista de Nazário. Minha mãe já podia participar como ouvinte porque era uma dizimista fiel. Nós, os filhos, não podíamos ser apresentados na igreja como todas as crianças porque nossos pais eram considerados adúlteros e, consequentemente, nós, os quatro filhos do casal, éramos supostamente “ilegítimos”, segundo a lei.

Tivemos uma educação religiosa na Igreja Batista. Além da escola e da casa de meus avós, era o único lugar aonde íamos. Como cristã evangélica, minha mãe adotou essa fé como companheira e amiga; era o que dava norte à sua vida. Assim ela decidiu, que mesmo com todas as restrições da igreja, era melhor criar os filhos – Heribaldo, Valquíria, Hulda (eu) e Débora – na fé cristã.

Dona Maria valorizava as pessoas. Nunca perdeu a esperança em dias melhores. Mas faltava algo para completar a sua “vingança social”. Depois de ter conquistado um emprego respeitado, ser chamada de Dona Maria Coletora ela precisava promover o seu marido. Fazer dele um homem respeitado. De peão, meu pai passou num concurso do Cartório do Registro Civil e mais tarde resolveu candidatar-se a prefeito da cidade. Não tinha dinheiro para sustentar uma campanha contra os chamados poderosos da cidade. Mas se relacionava bem com a população

A perseguição – Com um trabalho bem feito de casa em casa e atenção ao eleitor, meu pai foi bem-sucedido e se tornou o prefeito, em 1960. Fez muitas coisas pela cidade. Construiu o novo Fórum, o Posto de Saúde, o Grupo Santos Dumont, levou escola de segundo grau para o município, abriu escolas nas fazendas, a CASEGO, com a ajuda do Estado. E arregimentou todo o dinheiro para colocar energia elétrica na cidade, além de outras coisas, como comprar a casa para o juiz.

Com todo esse trabalho despertou ciúmes políticos. Um dia marcou viagem para Curitiba, onde ia participar de um encontro entre os prefeitos do país. Deixou com a secretaria Terezinha dois papeis em branco assinados, caso fosse necessário ficar mais dias, e ter suas faltas justificadas junto a Câmara dos Vereadores.

Um funcionário da prefeitura, Getúlio, ouviu a conversa e viu onde a secretária guardou os papeis em branco assinados. Roubou os documentos e junto com outras pessoas resolveu escrever uma carta para um guerrilheiro dizendo que em Nazário podia contar com muitas pessoas para a revolução; e que havia quantidade enorme de explosivos e dinamites. Não deu outra. Em pouco tempo o Exército apareceu e levou meu pai preso na porta de nossa casa.

Aí começamos outra luta na família: tirar meu pai daquele imbróglio. O Exército entendeu que ele havia sido vítima de uma armação. O libertaram, mas ele perdeu o direito de ser prefeito por seis meses até que terminasse de responder um processo em Juiz de Fora, Minas Gerais. Foi considerado inocente, mas dez anos depois continuava a responder processos e dar respostas às falsas denúncias feitas pelos desafetos que não aceitavam o fato de ele não ter sido derrotado por completo.

Na verdade, conseguiram terminar com sua carreira política sim, mas queriam mais: a desmoralização total. Como não conseguiram, resolveram perseguir a minha mãe. E toda semana ela era lotada numa cidade diferente para deixá-la longe da família.

Passado todo esse processo, viemos para Goiânia. Já éramos pré-adolescentes no início dos anos 70. Vida dura naquela época. Ganhar dinheiro no Brasil era muito difícil e assim continuamos nossa jornada com muita dificuldade, mas vencendo o dia-a-dia e tentando nos curar dos traumas passados. Em fevereiro de 2004, minha mãe morreu de infarto. Assim terminou uma história de lutas, com derrotas e vitórias.

 

Texto do livro Mulheres: histórias de dor, preconceito, coragem e superação, escrito pela filha de dona Maria, empresária do agronegócio, Hulda Morais – postado por Britz Lopes

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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