segunda-feira, 17 de junho de 2024

Uma plantação de lâmpadas na cidade das coisas velhas

 

Marcio Fernandes – Goiás está chegando aos 300 anos do ciclo do ouro e a consequente criação do espaço urbano no território do Brasil Central. Isto aqui já foi um sertão indomável de caiapós bravos e muito distante do litoral onde o País começou em 1500 e só tinha vista para o mar. Hoje não existe mais nenhum deles.

 

Diferente de Minas Gerais, a exploração mineral em Goiás não foi tão produtiva. A pobreza das jazidas, o alto custo do escravo e a deficiência da logística de transporte foram alguns fatores determinantes para que o ciclo durasse menos de cinco décadas. Depois que o ouro acabou, o Estado mergulhou em atraso desolador que só seria rompido nos últimos anos do século passado.

 

Uma consideração interessante sobre a diferença de escala da extração do ouro entre os dois Estados é o fato de por aqui ter sido realizada uma expressão fraca do barroco, pois a arte sacra exigia muito investimento. No entanto, foi possível erguer com a tecnologia portuguesa do século 18 uma arquitetura com a matéria-prima local de extraordinária singularidade. A consagração desta obra dos bandeirantes veio em 2001 com o reconhecimento de Patrimônio da Humanidade pela Unesco do centro histórico da Cidade de Goiás.

 

 

Ontem eu saí de casa em Pirenópolis atrás de coisas velhas. De imagens e lugares que pertencem aos 300 anos de história. Paredes descascadas, casas de vigas de aroeira que nunca acaba, quintais com galinha caipira e goiabeiras de várias décadas. Encontrei um galo idoso da crista baixa e movimento lento. Encontrei algumas kombis de 40 anos ou mais a desfilar pela Rua Direita para minha total inveja admirativa. Encontrei uma adolescente linda em aula de saxofone. Certamente ela vai um dia integrar a Banda Phoenix do Mestre Propício, fundada em 1893.

 

 

A banda é uma referência cultural da cidade e se encontra instalada no antigo Mercado Municipal. Hoje, o casarão de 1914 abre suas janelas para sair a melodia que inaugura oficialmente o pôr do sol deste dia normal de verão úmido do Planalto Central.  Eu vou pelo leito de pedra da Avenida Neco Mendonça e um carro de som anuncia pamonha. Pamonha doce. Pamonha de sal. E a pamonha à moda, que não saberia dizer o conteúdo. Carro de som é uma tradição pirenopolina que a internet não desligou. O meio de comunicação é muito eficiente para anunciar especialmente velórios pelos bairros.

 

A Rua Direita é a mais linda cidade e rivaliza beleza com a Rua Aurora. O sol que foi embora deixa sobre o casario colonial nuvem pesada de chuva farta que não caiu ontem à noite para que não se propagasse o racismo ambiental. Há uma base de céu limpo no fundo do horizonte que me faz sentir parte de Pirenópolis, depois de um quarto de século por aqui. Se me viro para o outro lado, em direção da Lapa, a última luz do dia ainda reserva um finzinho de azul que eu levo para casa onde um bolo de chocolate mordido me espera.

 

 

Fiz suco com base de laranja, misturada com goiaba caburé, provavelmente com bicho, catada na rua, limão e porção generosa de hortelã. Senti que estava muito bom, mas faltava algo para ficar sensacional. Me lembrei do chá de Tila que estava marinando há dois dias em garrafa de plástico. Alterou completamente o sabor e agora eu só preciso exterminar umas plantas que há no quintal de casa.

 

No meu encontro com as coisas velhas eu vi uma carroça triste de tão abandonada. Mesmo assim, acho que ela tinha um certo ar de orgulho pelos tempos de abundância do frete de coisas e gente. Conheci dois irmãos que vieram há anos do Ceará e morrem de saudade do sertão nordestino, ainda que a casa em que eles vivem seja feita do adobe que só se encontra nesses sertões caipiras de Goiás. Eu tive uma palestra muito instrutiva com um cavaleiro que conhece a história dos Loros, comunidade negra de raça pura que ainda habita a região do Beco do Sapo.

 

 

Onde existe aquele coreto pavoroso de feio, havia antigamente a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Lá tinha barroco. Encontrei o relógio que pertenceu à Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, consumida por incêndio em 2002. Por acaso, o relógio está estacionado no tempo. Na parede é sempre 2h30, hora em que ele parou de trabalhar.

 

 

No largo da Matriz, uma plantação de lanternas ilumina os passos dos católicos que se encaminham para o quarto dia da Novena de São Sebastião. Peguei um pouco da missa, justamente quando eram chamados os nomes dos mortos para que suas almas fossem abençoadas. Ainda vou dar mais uma procurada boa por coisas velhas. Minha cidade está cheia delas.

 

Fotografias: Marcio Fernandes

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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