quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Vamos trocar Os Lusíadas por Allan Poe?

 

Província de Goyaz, no começo de outubro do Ano da Graça do Senhor de 1896.

Madame, Madame, Madame!!!!

A Província está em polvorosa!

Não se fala em outra coisa, nem a chuva temporã que cai há dois dias faz sucesso como as novas que estão correndo por acá.

Vede, Madame, chegou-nos a notícia que voltaremos a ser colônia e desta vez, dos Estados Unidos da América. Que anúncio! 

Confesso-vos que fiquei um tanto eufórica, senhora!

 

Senti um tamaniquinho assim de dó dos portugueses: perderão a paternidade sobre nós, ora pois!

Pobres portugueses.

Depois de três séculos, vai-se o título de antigos proprietários.

 

Imagino Lisboa consternada. Afinal, criar colônia dá trabalho, Madame.

Havemos de nos lembrar, no entanto, que Portugal ao menos teve o trabalho de atravessar o Atlântico.

Os novos colonizadores nem precisarão vir.

 

Existe por agora método muito moderno: coloniza-se por tarifa, sanção, ameaça, telefonema e traidores!

Ah! Os traidores! 

O que seria de Jesus sem um traidor? Talvez fosse relegado ao revolucionário que era e ficaria apenas nisso. Mas bastou um traidor, um beijo falso e o homem entrou para história, mudando o calendário, senhora: isso há mais de dois mil anos!! Que sensatez a do roteirista! Que visão atemporal!

 

E Roma? 

-“Até tu, Brutus?” 

É a pergunta que ecoa nos ouvidos até de quem nem sabe quem pronunciou.

 

Acá na roça mora um escravo forro chamado Brutus e na Província há muitos Césares. Desconhecem todos o peso histórico dos nomes que possuem. Ainda bem! Se nome fosse condutor de destino, seríamos todos muito precavidos com Brutus, que, negro como a noite, não consegue fazer mal a uma formiga. Mas Brutus, o nome e a interpelação, conseguiram chegar a Goyaz destes anos oitocentistas pela força do encargo, senhora editora! O traidor tem lugar de destaque na humanidade, vede bem!

 

Adiantando os fatos, em spoiler intencional, vai chegar o tempo em que vossa sociedade literária vai se reunir em todos os cantos a se perguntar: “traiu ou não traiu?” Tudo por força das palavras do Sr. José Maria, frequentador famoso da Ouvidor, com quem tive a sorte de trocar algumas palavras, quando ainda residia eu na Capital Federal.

 

Considerai, portanto, Madame, os que desempenharam com zelo suas incumbências de traição: tiveram seus nomes registrados nos anais da humanidade!

E, desde então, o ofício só fez aperfeiçoar-se.

Daí volto ao meu pensamento sobre a colônia! Estamos acá desesperados porque não temos roupa para tão grandioso evento, ou melhor: não sabemos o dress code para nos paramentar à suficiência.

 

Espero que reconheçais que estou a me esforçar: “spoiler”, “dress code”, “The book is on the table”. 

Não vejo a hora de trocar Os Lusíadas por Poe. Já vejo o corvo negro pousado no mourão da cerca, encarando as galinhas da roça como se soubesse de alguma desgraça que nós ainda ignoramos. Eis o progresso! Bem-vinda América! 

 

Mas, passado o primeiro entusiasmo, ocorreu-me uma preocupação de ordem prática: o que acompanha a colônia? Sabei vós me responder?

Porque, Madame, quando se muda de proprietário, convém fazer uma relação de bens. Nós, que já tivemos experiência portuguesa, sabemos que certas visitas começam admirando a paisagem e terminam perguntando onde guardamos o ouro. 

 

Pus-me, então, a examinar o patrimônio: nos vossos anos, teremos umas coisas chamadas terras raras. Pelo que entendi, são minerais tão preciosos aos engenhos do futuro que servirão para fabricar desde pequenas maravilhas eletrônicas até máquinas de guerra. Naturalmente, temos algumas. Que inconveniência!

 

Também teremos petróleo debaixo do mar. Muito.

E não contente em estar debaixo do mar, estará debaixo de sal.

Achei poético, senhora editora.

 

Notai, os portugueses atravessaram oceanos atrás de especiarias e ouro; os americanos, mais modernos, poderão interessar-se pelo que escondemos debaixo do sal.

Cada século com seu tempero.

 

Há ainda lítio, nióbio, ferro, água, florestas e uma Amazônia inteira que, pelo que observo, o mundo aprecia com entusiasmo bastante superior ao demonstrado por muitos de seus proprietários.

Começo a compreender, Madame, que somos uma colônia muito bem fornida.

Talvez devêssemos providenciar uma relação dos bens antes da posse.

 

Uma espécie de inventário:

As riquezas podem ser medidas, pesadas, perfuradas, negociadas.

Mas a maior, aquilo sem medida, uma tal de soberania, é artigo mais delicado. Perde-se sem barulho. Ninguém acorda pela manhã e encontra um bilhete sobre a mesa dizendo que a partir daquela data, deixou de mandar na própria casa.

 

Não. É uma performance mais teatral, começa mais civilizadamente: um conselho, depois uma exigência, depois uma tarifa, uma sanção, uma ameaça, um telefonema.

Que elegância a dos tempos modernos!

 

Mas tranquilizai-vos, Madame, estou certa de que encontraremos boa disposição, pois o brasileiro é povo hospitaleiro: se alguém cobiçar nossas terras raras, indicaremos o caminho, se desejar conhecer o pré-sal, explicaremos onde fica, se perguntar pelas riquezas nacionais, sempre haverá alma prestativa disposta a abrir-lhe o armário.

Hospitalidade, afinal, é virtude nacional.

 

E aqui me ocorre pensamento desagradável: talvez o verdadeiro luxo de uma colônia não sejam suas riquezas, mas sim possuir colonizados dispostos a entregá-las. Percebei: ouro, petróleo e minerais permanecem quietos onde a natureza os pôs, precisam de homens e engenhocas para retirá-los. E soberania também não sai andando sozinha. Precisa que alguém abra a porta. 

Voltamos, portanto, aos traidores.

Vede como a História é bem escrita!

 

Começamos com Judas, passamos por Brutus, atravessamos tarifas, sanções e telefonemas e acabamos outra vez diante do mesmo lugar.

Traidor de alguma inteligência não arromba a porta, Madame.

Recebe a chave.

 

Só espero que, quando chegarem para buscar as terras raras, não levem também o Brutus, que aquele não trai ninguém.

E, além disso, ele me ajuda no cuidado das galinhas.

Vosso Estados Unidos pode ficar com Poe.

O Brutus é nosso!

O Judas é vosso!

Viva o hambúrguer!

Este post foi escrito por: Sinhá

As opiniões emitidas nos textos dos colaboradores não refletem necessariamente, a opinião da revista eletrônica.

Deixe uma resposta