domingo, 21 de abril de 2024

Veja quanto você pagou pela festa da democracia

 

Marcio Fernandes – Você é o pagador de praticamente toda conta do que está acontecendo nesta eleição mais desarrumada da história da redemocratização do Brasil. O Tesouro Nacional está sendo sangrado em R$ 4,9 bilhões para financiar a campanha eleitoral de 27.132 candidatos neste continente de políticos malandros de todo gênero. Uma fortuna destinada ao custeio da pretensão legítima de alguém em alcançar capacidade instalada de poder político. O maior dos privilégios deste País cartorial.

 

O partido é alma do negócio e a candidatura o bilhete premiado. O que não tem nenhuma representação no Parlamento ganhou um troco de R$ 3,1 milhões. O mais aquinhoado, União Brasil, levou um colchão de R$ 782 milhões. Rigorosamente todos as agremiações partidárias têm direito ao botim chamado Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O Novo, não aceitou. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece as regras da forma e da finalidade na utilização do recurso público. Quando a bolada chega na conta do partido, as regras são dos donos da legenda. Eles têm o poder senhorial de distribuir as premiações financeiras com extrema liberalidade de acordo com as leis da influência política.

 

Alguns dos operadores do dinheiro público nestas eleições são ex-presidiários condenados por movimentação milionária de Caixa-2 de campanha à época dos governos do PT, a maioria a serviço de Lula e Bolsonaro. O Fundo Eleitoral foi instituído em 2017 para diminuir a influência do poder econômico no processo democrático. Era para ser uma vacina contra a injeção de propina nas campanhas eleitorais por grandes pessoas jurídicas que cultivavam bons negócios com o Estado. Não deu certo, é claro! Continua em pleno em vigor a irrigação ilegal de campanhas por intermédio de dinheiro da corrupção orçamentária e do investimento direto de organizações criminosas.

 

Por que eu tenho de acudir financeiramente a festa da democracia se, até momento, os principais interessados investiram nas respectivas campanhas apenas 2% de dinheiro do próprio patrimônio? A distribuição de renda partidária promovida pelo TSE canaliza recurso público desde o mais bizarro candidato a deputado estadual aos presidenciáveis, em escala proporcional à relevância do cargo.

 

Aí mora o expediente da vigarice: o lançamento de uma candidatura simulada, especialmente a cargo majoritário. Por exemplo, um candidato a senador de fachada de partido grande levou, em média, nestas eleições o equivalente ao patrimônio que um sujeito excomungado da classe média poupou em quatro décadas de trabalho. No caso do candidato a governador figurado, é dinheiro para comprar uma quinta em Portugal e se tornar pequeno vinicultor.

 

Você pagou por tudo o que te incomodou nestas eleições e deve ser considerado um coitado. Aquele monte de santinhos a sujar ainda mais as ruas foi financiado por ti. O tedioso Horário Eleitoral Gratuito foi duplamente pago com seu dinheiro. Foi por sua conta o chatíssimo trio elétrico, a perturbar o silêncio do sábado, com locutor de rodeio aos gritos e umas cinco dançarinas de bordel contratadas como porta-bandeira. Você pagou até a mente iluminada do publicitário que criou o slogan de um candidato que se diz ser um defensor da vida. Meu Deus, trata-se de platitude que faz desconfiar comerciante de estabelecimento funerário.

 

Há outro indivíduo que usa o dinheiro do pagador de impostos para se posicionar contra a depressão e o suicídio. Quem seria a favor? Saiu da sua conta o recurso que financiou os comerciais no Youtube e toda essa coisa de rede social. Também você pagou pela antipatia dos cabos eleitorais nas ruas, justamente no engarrafamento da volta do trabalho.

 

Pagou por comitês esplêndidos, carreatas, comícios, produções cinematográficas, pesquisas eleitorais, dupla caipira, locadoras de automóveis, gráficas fantasmas e jatinhos suspeitos. A lista é grande e está tudo na sua conta de contribuinte principal da festa da democracia. Em sinal de revolta, a opção de não votar vai te custar R$ 3,5. É muito barato, possível de ser pago pela internet, mas faça a conta do quanto você já gastou nesta campanha?

 

Marcio Fernandes é jornalista.

 

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Este post foi escrito por: Marcio Fernandes

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