segunda-feira, 17 de junho de 2024

Violar direitos pode; beber não!

 

Enquanto você, aqui no Brasil, estiver preparando o cenário e roupas em verde e amarelo, telão ao fundo, picanha e cerveja, lembre-se de seus pobres compatriotas em viagem ao Catar para acompanhar o desempenho da Seleção Brasileira na Copa do Mundo; no seco, ganhando ou perdendo. Ou, em ato de desespero da piedade, pagando uma fortuna por um chope que não vai fazer cócegas na saliência do torcedor brasileiro, acostumado a beber industrialmente.

 

O consumo de bebida alcoólica em público no Catar é proibido por lei, mas a violação dos direitos é chancelada por ela. A vida por lá só é fácil para o homem varão e a mulher que o obedece cegamente. O buraco por lá vai muito além dos fermentados e destilados. Tem a ver com a tutela do Estado que pune os diferentes, os imigrantes e as consideradas minorias, incluindo as comunidades LGBT.

 

No Catar, a mulher tem de obter permissão masculina para se casar, estudar, trabalhar no governo e até para cuidar da saúde sexual na fase reprodutiva. Sexo fora do casamento pode acarretar sete anos de prisão – se forem muçulmanas, a condenação deve chegar em forma de açoitamento ou apedrejamento. Estupro? Se a mulher pelo menos conhecer o agressor, torna-se ré e o processo se inverte. A denúncia de agressão sexual é considerada confissão.

 

Homossexualismo por lá é tido como ato de imoralidade e sodomia, caso de grave desvio mental, com penas que podem chegar a 10 anos de prisão. Em outubro passado, a Human Rights Watch denunciou que o Ministério do Interior prendeu arbitrariamente seis pessoas LGBT que sofreram tortura e assédio sexual durante a detenção. Como condição para serem liberadas, tiveram de se submeter a uma terapia comportamental bancada pelo governo.

 

Os milhares de trabalhadores migrantes recrutados para construir a infraestrutura da Copa no Catar sofreram abusos generalizados, foram obrigados a pagar taxas ilegais de recrutamento, entre outros absurdos que ruborizariam os árbitros mais estrelados desse espetáculo do futebol mundial. Muitos outros não receberam o pagamento de salários ou perderam a vida. E daí? A Fifa sabia de tudo isso, mas seus parceiros e patrocinadores comerciais vão se beneficiar do maior evento esportivo do planeta, com a ampla divulgação.

 

Com isso tudo empurrado para debaixo do tapetão verde, os torcedores continuam com as piadinhas sobre as restrições etílicas, os jornalistas com as reportagens jocosas a respeito das diferenças culturais. A festa acaba, os turistas-torcedores vão tomar muito e contar histórias quando voltarem para casa e o Catar continua lá, o mesmo. Então, vamos nos concentrar na Copa; as violações dos direitos humanos a gente vê depois. Parece um déjà vu.

 

Foto: Reprodução / Fifa

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Este post foi escrito por: Britz Lopes

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